Call for Papers 2026 • História e Futuro

2026-02-23

Já em Heródoto, o futuro aparecia como um horizonte moral e cíclico de onde derivavam as lições morais. Sua obra se justifica à medida em que busca preservar para a posteridade a memória dos gregos em seus grandes feitos. Essa ideia foi consolidada por Cícero sob o prisma da história magistra vitae ao entender a história como instrumento moral para guiar ações futuras. Em seu sentido moderno, no entanto, é no final do século XVIII que o futuro surge como télos, isto é, como ponto último de um processo histórico. Ao longo do século XIX, esse futuro teleológico se consolida como horizonte de expectativa baseado no progresso, na razão e na emancipação. Seja a partir de uma teleologia do progresso de teor liberal, de uma teleologia nacionalista de teor conservador, ou ainda de uma teleologia revolucionária de inspiração socialista, o século XIX assiste à consolidação do “cronótopo histórico” na forma de um processo no qual o futuro tem caráter orientador.


A partir do entre-guerras, porém, as diferentes formas da teleologia moderna passam a ser questionadas em todas as frentes: nas ciências, nas humanidades e nas artes. Combinando Freud, Marx e Nietzsche, a Escola de Frankfurt questiona a teleologia do progresso à medida em que formula o paradoxo de uma era mais esclarecida que, no entanto, sucumbe à barbárie da guerra. No último quarto do século XX, é a vez do pós-modernismo, investido do pós-estruturalismo francês, anunciar a “crise das grandes narrativas” e o “fim da história”, diagnóstico do qual se originaram presentismos, aceleracionismos, atualismos e pós-humanismos. Longe de ser o espaço do progresso e da emancipação, o futuro aparece aqui como o incontingente e o inimaginável. Aliás, as diferentes vertentes que se desdobram da chamada “crise da história” e reagem tanto ao pós-modernismo quanto à virada linguística podem ser avaliadas conforme seu grau de abertura para o futuro, que pode ir desde uma desconfiança radical até o senso de urgência de pensar o que vem depois. Isto posto, uma vez que o futuro perdeu o caráter orientador que lhe era atribuído pelo pensamento moderno, há que se pensar futuros outros, não necessariamente auspiciosos, mas que sirvam para contornar a estagnação do pensamento histórico diante da demanda de imaginar a mudança. Superar o futuro, imaginar-se “depois do futuro”, para recordarmos a obra de Franco Berardi, também significa historizar seu desaparecimento. Que futuros eram esses que não existem mais? Como a compreensão do seu “lento cancelamento” nos ajuda a pensar o presente e, a partir daqui, outras possibilidades de futuro?


Ademais, a relação entre história e futuro tem se mostrado uma das questões mais desafiadoras para a teoria da história e a prática historiográfica contemporâneas. A aceleração das crises ecológicas, tecnológicas e sociais colocou em xeque a função tradicional da história como disciplina voltada ao estudo do passado. Como declarou Zoltán Boldizsár Simon, “A história começa no futuro”. Temporalidades progressivas e lineares deram lugar a temporalidades múltiplas e transversais; o futuro deixou de ser apenas uma projeção para se tornar um imperativo ético; questões epistemológicas sobre como conhecer e compreender o passado deram lugar a questões sobre como coexistimos, nos relacionamos e habitamos o planeta, destacando a responsabilidade ético-política do/a historiador/a. Essa mudança na forma como concebemos o futuro tem provocado uma transformação radical na forma como definimos o pensar e o fazer históricos, bem como sua relação com outros campos e formas não disciplinares e não ocidentais de ser e de conhecer. Como podemos pensar historicamente quando o futuro se apresenta cada vez mais como um horizonte de incerteza e vulnerabilidade? Como imaginar futuros alternativos em tempos de crise?


Este dossiê propõe-se a explorar o futuro como objeto de reflexão histórica, articulando-o a questões existenciais, epistemológicas, ético-políticas e metodológicas. Buscamos reunir uma diversidade de contribuições que tratem, mas não se limitem, aos temas a seguir:


• O futuro na historiografia clássica e antiga
• Ascensão e crise das teleologias modernas
• Crise da história e o desaparecimento do futuro
• O papel das utopias e distopias na imaginação histórica contemporânea
• A relação entre história, artes, ciências e filosofia na criação de futuros possíveis
• Perspectivas de futuro no pensamento indígena e não ocidental
• Perspectivas de futuro pós-coloniais e decoloniais
• Antropoceno, Capitaloceno e o futuro da humanidade
• O futuro na perspectiva das humanidades ambientais
• Futuros pós-humanos e transumanos
• O impacto das novas tecnologias (IA, biotecnologia) na redefinição da historicidade

 

Data final para envio |31 de julho de 2026        Publicação | 2026

Submissões via website: https://www.revistas.ufg.br/teoria/about/submissions

 

 

Bibliografia

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