Da Necropolítica à paisagem-reparação
infraestrutura, memória e justiça territorial na Pequena África, RJ
DOI:
https://doi.org/10.5216/revjat.v7.83195Palavras-chave:
Paisagem cultural, Justiça urbana, Covid-19, Paisagem-Reparação, Rio de JaneiroResumo
A pandemia de Covid-19 aprofundou desigualdades socioespaciais na zona portuária do Rio de Janeiro, impactando comunidades negras da Pequena África — território histórico vinculado à memória afro-atlântica. Este artigo adota uma abordagem qualitativa baseada em análise documental de normas patrimoniais (2009–2024), atas do Comitê Gestor do Cais do Valongo e indicadores oficiais de saúde e turismo. Os resultados demonstram que a patrimonialização seletiva, aliada à especulação imobiliária e à negligência sanitária, perpetua a necropolítica urbana mesmo em sítios reconhecidos pela UNESCO. Como contraponto, propõe-se uma Agenda de Paisagem-Reparação estruturada em quatro eixos interdependentes: (I) o Fundo Atlântico Negro de Infraestrutura Solidária (FANIS), financiado por receitas turísticas, renúncias fiscais e IPTU progressivo, com foco em saneamento e permanência habitacional; (II) o Índice de Autenticidade Viva (IAV), que condiciona benefícios fiscais ao cumprimento de metas sociais e culturais; (III) as Zonas de Amortecimento Culturais Inclusivas (ZACI), sobrepostas a áreas de proteção e vinculadas à função social da moradia; e (IV) o Termo Territorial Coletivo (TTC), modelo de posse coletiva que evita revenda especulativa. A proposta visa ancorar a conservação patrimonial em justiça territorial, articulando memória, infraestrutura e permanência comunitária nos territórios negros.
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