A pesquisa de enfermagem e a qualificação da assistência: algumas reflexões

Autores

  • Cinira Magali Fortuna Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto
  • Silvana Martins Mishima Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto

DOI:

https://doi.org/10.5216/ree.v14i4.13408

Resumo

Temos vivenciado no Brasil um crescimento significativo dos grupos de pesquisa(1), com incremento nas investigações de enfermagem e, consequentemente, um aumento da divulgação em periódicos científicos, bem como a qualificação dos pesquisadores e dos periódicos da área.

Essa melhora tem sido traduzida na elevação dos índices bibliométricos(2-3), cabendo destacar que esse movimento acompanha o incremento da pós-graduação em enfermagem no país. No entanto, uma questão deve ser feita: qual tem sido o impacto dessa produção na qualidade da atenção prestada aos usuários dos serviços de saúde?

Propositadamente não especificamos assistência de enfermagem por considerarmos que a pesquisa no campo da saúde, comprometida com a defesa e a qualificação da vida, não se dirige somente aos campos profissionais que desenvolvem, uma vez que ultrapassam fronteiras de conhecimentos. Adicionalmente, temos como premissa a enfermagem, enquanto prática social, necessariamente articulada a outros trabalhos e campos dos saberes. Dito de outra forma, não há enfermagem de qualidade apartada do trabalho em saúde de qualidade e éticamente comprometida com a vida das pessoas.

Parece-nos importante refletir no ?espaço?, interstício, entre uma investigação e respectivo impacto na atenção prestada, especialmente, no Sistema Único de Saúde, já que defendemos a assistência de qualidade na saúde como direito inalienável de todo cidadão, e não como mercadoria a ser acessada conforme a posição social e econômica de cada sujeito no processo de produção.

A pesquisa científica, assim como a saúde, a linguagem e, por que não, a enfermagem, entre outras, são instituições que possuem uma parte mais aparente, dita, explícita, aceita em suas manifestações, e outras composições implícitas, não ditas, que igualmente as constituem(4). Nessa perspectiva, a sociedade é um tecido de instituições que nos fabricam em nosso jeito de ser, amar, estar na vida, porém, que também são fabricadas por nós, sujeitos em seu devir histórico. Dentro desse território conceitual é que chamamos nossos colegas, trabalhadores de saúde, pesquisadores, docentes, a pensarem conosco: O que temos produzido? Para quem? Para quê?

Nossa análise de implicação(5), o olhar reflexivo para o modo como as instituições estão em nós e nos fabricam, e de que maneira nos colocamos nessas instituições, fez-nos, de partida, analisar os efeitos do convite para elaborar este editorial. Certamente foi motivo de grande alegria permeado pela ideia de reconhecimento do trabalho, mas foi também efeito de laços afetivos, inseparáveis dos processos investigativos, que insistimos em negar e deixar de fora da ciência:  manifestação da instituição científica em nós.

A pesquisa está atrelada à produção de conhecimento, que por outro lado se vincula aos programas de pós-graduação no interior da universidade, a um docente/grupo de pesquisa, que também é um trabalhador do ensino ou que aglutina outros pesquisadores/trabalhadores. Na atual sociedade, de capitalismo mundialmente integrado, uma premissa nos guia: há um vínculo indissociável entre ensino e pesquisa.

Essa premissa traz consequências tanto para a prática do ensino como para o desenvolvimento da investigação(6). Quais são as medidas de avaliação do trabalho de um docente, atualmente? Em geral, são produções que caibam em coeficientes como número de artigos publicados, número de orientações concluídas, número de horas-aulas etc.

Uma das consequências tem sido a sobrecarga de professores que, atualmente, tem tido pouco tempo para reflexão. Nóvoa(6) nos chama a atenção para o seguinte fato: enquanto o imperativo da formação de profissionais reflexivos adentra a formação universitária, há, coincidentemente, um esvaziamento do tempo do professor para refletir(6).

É possível pesquisar sem refletir? É possível, sem tempo, acompanhar o tempo de aprendizagem dos estudantes de graduação e pós-graduação em seu árduo processo de aprender a pesquisar sem tempo? Em que medida os esforços de pesquisa têm se voltado ao processo de ensino-aprendizagem, de aprender a aprender novas possibilidades de intervir na realidade? São perguntas que se fazem presentes e que desafiam um olhar diferenciado para o produto da díade ensino-pesquisa.

Outra dimensão das instituições é a imanência existente entre aspectos macropolíticos e micropolíticos. Há efeitos dos sistemas de avaliação dos periódicos, dos programas de pós-graduação e das avaliações por pares sobre as pesquisas e, também, sobre as respectivas divulgação e publicação.

Que efeitos produzem os indicadores utilizados na métrica da avaliação da produção científica – traduzida em fatores de impacto que permitem a comparação entre periódicos de ciências de várias naturezas –, as medições que indicam o volume de citações de cada pesquisador na produção científica e os editais que disponibilizam recursos financeiros para temas e desenhos específicos de investigações, na prática de investigativa em enfermagem e em saúde?

Parece-nos que a intrínseca relação entre a pesquisa da enfermagem e da saúde, para a qualidade de assistência prestada, vai se diluindo e resta, de certa forma, as seguintes questões: produzimos “ciência” para atender a qual finalidade? Que ciência é esta que estamos construindo no campo da saúde e no campo da enfermagem? Talvez estejamos num processo produtivo que “esconde” os objetivos de manutenção de nosso trabalho, de ranquear pessoas, universidades e serviços, na lógica do consumo e do individualismo. Um processo que naturaliza a ideia de que um pesquisador é pesquisador individualmente e consegue desenvolver-se por seus esforços, quando na verdade não há produção científica que comece em si mesma, e sim trabalhos/investigações/esforços anteriores e concomitantes que tecem uma rede de pesquisas.

Pesquisadores(7) afirmam que “a produção científica inserida na esfera acadêmica continua afastada dos serviços, exercendo pouca influência na formulação de políticas públicas de saúde”. Então, como nos reaproximar de nosso compromisso ético-estético de produzir pesquisas que tenham como finalidade última a qualificação da atenção?

Sem respostas prontas e cientes da força do instituído, nosso desafio é o de agenciar outros processos, inventar novos dispositivos, produzir rachaduras na superfície dura das instituições, ranhuras de início imperceptíveis, mas capazes proporcionarem outros movimentos.

Um possível movimento pode estar na busca de parcerias com trabalhadores e usuários para a pactuação de pesquisas que respondam a desafios cotidianos dos serviços de saúde, intervenções sustentadas em evidências e conhecimentos científicos produzidos em uma delicada e intrincada rede de saberes de diferentes áreas(8).

Propomos um esforço coletivo de invenção: construir projetos e pesquisas que, ao mesmo tempo, produzam conhecimentos, transformem as práticas e, sobretudo, criem vida onde está, em sua preciosidade, reiteradamente se esvai.

 

 

REFERÊNCIAS

1. Erdmann AL, Lanzoni GMM. Características dos grupos de pesquisa da enfermagem brasileira certificados pelo CNPq de 2005 a 2007. Esc. Anna Nery [Internet]. 2008 [cited 2012 dec 31];12(2):316-22. Available from: http://dx.doi.org/10.1590/S1414-81452008000200018.

2. Marziale MHP, Mendes IAC. O fator de impacto das publicações científicas. Rev Lat Am Enfermagem [Internet]. 2002 [cited 2012 dec 31];10(4):466-7. Available from: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692002000400001.

3. Erdmann AL, Fernandes JD. A classificação dos periódicos científicos da área da Enfermagem. Acta paul. enferm. [Internet]. 2009 [cited 2012 dec 31];22(5):v-i. Available from: http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002009000500001.

4. Baremblitt G. Compêndio de Análise Institucional e outras correntes. Teoria e Prática. 5th ed. Belo Horizonte: Instituto Felix Guatarri; 2002.

5. Monceau G. Implicação, sobreimplicação e implicação profissional. Fractal, Rev. Psicol. [Internet]. 2008 [cited 2012 dec 31];20(1):19-26. Available from: http://dx.doi.org/10.1590/S1984-02922008000100007.

6. Universidade de Vigo Televisión [Internet]. Vigo: Universidade de Vigo (BR) [cited 2012 dec 31]. Mediateca. II Congreso Internacional de Docencia Universitaria (II CIDU 2011). Conferencia de António Nóvoa. Available from: http://tv.uvigo.es/video/44043.

7. Cabral IE, Tyrrel MAR. Pesquisa em enfermagem nas Américas. Rev Bras Enferm [Internet]. 2010 [cited 2012 dec 31];63(1):104-10. Available from: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672010000100017.

8. Fortuna CM, Mishima SM, Matumoto S, Pereira MJB, Ogata MN. A pesquisa e a articulação ensino-serviço na consolidação do Sistema Único de Saúde. Rev Esc Enferm USP [Internet]. 2011 [cited 2012 dec 31];45(spe2):1696-700. Available from: http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000800010.

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Biografia do Autor

Cinira Magali Fortuna, Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto

Enfermeira, Doutora em Enfermagem. Professora Doutora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP/USP). Ribeirão Preto, SP, Brasil. E-mail: fortuna@eerp.usp.br.

Silvana Martins Mishima, Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto

Enfermeira, Doutora em Enfermagem. Professora Titular da EERP/USP. Ribeirão Preto, SP, Brasil. E-mail: smishima@eerp.usp.br.

Publicado

31/12/2012

Como Citar

1.
Fortuna CM, Mishima SM. A pesquisa de enfermagem e a qualificação da assistência: algumas reflexões. Rev. Eletr. Enferm. [Internet]. 31º de dezembro de 2012 [citado 28º de maio de 2022];14(4):740-8. Disponível em: https://revistas.ufg.br/fen/article/view/13408

Edição

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Editorial