DOI: 10.1590/1809-6891v20e-47686
MEDICINA VETERINÁRIA


ACHADOS HEMATOLÓGICOS EM SANGUE E MEDULA ÓSSEA DE CÃES NATURALMENTE INFECTADOS POR Ehrlichia spp. E Anaplasma spp.

HEMATOLOGICAL OBSERVATIONS IN THE BLOOD AND BONE MARROW OF DOGS NATURALLY INFECTED BY Ehrlichia spp. AND Anaplasma spp.



Lidiana Carvalho de Holanda1 ORCID - http://orcid.org/0000-0003-4744-6475
Telga Lucena Alves Craveiro de Almeida1 ORCID - http://orcid.org/0000-0002-7194-7993
Rebeca Menelau de Mesquita2 ORCID - http://orcid.org/0000-0003-2537-9670
Júnior Mario Baltazar de Oliveira1 ORCID - http://orcid.org/0000-0003-2655-2797
Andréa Alice da Fonseca Oliveira1* ORCID - http://orcid.org/0000-0002-3728-177X



1Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife, PE, Brasil.
2Fauna Consultório Vterinário, Recife, PE Brasil.
* Autora para correspondência - andreaafo@hotmail.com


Resumo
Objetivou-se analisar os achados hematológicos em sangue periférico e medula óssea em cães infectados por Ehrlichia spp. e Anaplasma spp.. Avaliaram-se 44 cães com suspeita clínica de hemoparasitose, de diferentes raças, idades e de ambos os sexos, submetidos ao exame sorológico pelo SNAP Test, a análises hematológicas e mielograma. Dos 44 cães avaliados, 63,6% (28/44) foram sorologicamente reagentes, sendo 57,1% (16/28) positivos para Ehrlichia spp., 21,4% (6/28) para Anaplasma spp. e 21,4% (6/28) de coinfectados. A trombocitopenia foi a alteração hematológica mais frequente em cães positivos para Ehrlichia spp., presente em 93,7% (15/16) (p=0,015) dos animais, enquanto a anemia macrocítica e hipocrômica prevaleceu em 66,7% (4/6) (p=0,010) dos animais infectados por Anaplasma spp.. Ao mielograma, 62,5% (10/16) (p=0,005) dos animais positivos para Ehrlichia spp. apresentaram hipoplasia medular e 75,0% (12/16) (p=0,044) diminuição do índice mieloide:eritroide (M:E). Nos animais positivos para Anaplasma spp., destacou-se a hiperplasia da série eritroide em 50,0% (3/6) (p=0,022) dos cães. Não houve associação significativa em nenhuma das análises com o grupo coinfecção (p>0,05). Os resultados obtidos neste estudo permitem inferir que o somatório de métodos laboratoriais é essencial na caracterização das hemoparasitoses em cães, agregando valor e permitindo uma efetiva consolidação do diagnóstico relacionado a essas doenças.
Palavras-chave: análises clínicas, hemoparasitoses, imunodiagnóstico, mielograma.

Abstract
This study aimed to analyze the hematological and cytomorphological findings in the peripheral blood and bone marrow of dogs infected with Ehrlichia spp. and Anaplasma spp. Forty-four dogs with clinically suspected hemoparasitosis, belonging to different breeds, ages, and both sexes, underwent serological examination by SNAP Assay, hematological analysis, and myelogram. Among them, 63.6% (28/44) tested serologically positive; among the serologically positive dogs, 57.1% (16/28) tested positive for Ehrlichia spp., 21.4% (6/28) for Anaplasma spp., and 21.4% (6/28) were coinfected. Thrombocytopenia was the most frequent hematologic alteration in dogs positive for Ehrlichia spp., present in 93.7% (15/16) (p=0.015) of the infected animals, while macrocytic and hypochromic anemia were observed in 66.7% (4/6) (p=0.010) of the animals infected with Anaplasma spp. In the myelogram, 62.5% (10/16, p=0.005) and 75.0% (12/16, p=0,044) of the animals positive for Ehrlichia spp. presented with bone marrow hypoplasia and decrease in the myeloid: erythroid (M:E) ratio, respectively. Hyperplasia of the erythroid series was observed in 50.0% (3/6) (p=0.022) of the animals positive for Anaplasma spp. No significant association was observed between the hematological alterations and the coinfection group (p>0.05). On the basis of these hematological observations, it can be inferred that the aforementioned laboratory examinations could be employed for the characterization and confirmative diagnosis of hemoparasitosis in dogs.
Keywords: hematological analysis, hemoparasitosis, immunodiagnostic, myelogram.


Recebido em: 3 de juhlo de 2017.
Aceito em 25 de maio de 2018.

Introdução



As hemoparasitoses consistem em um complexo de enfermidades ocasionadas por agentes que se disseminam na corrente sanguínea, sendo capazes de lesionar ou alterar a função das células sanguíneas, constituindo um crescente problema na rotina da clínica médica de pequenos animais, pois expressam sinais clínicos inespecíficos que limitam o diagnóstico preciso, minimizando assim as possibilidades de recuperação do paciente (1,2).

Em cães, destacam-se a Erliquiose Monocítica e a Trombocitopenia Cíclica, causadas respectivamente pelos agentes intracelulares obrigatórios Ehrlichia canis e Anaplasma platys, que representam duas das mais frequentes hemoparasitoses em cães, com aproximadamente 5,47% de coinfecção, considerando os dois agentes (3).

Os achados clínicos e hematológicos são inespecíficos em ambas as infecções e relacionam-se a fases da doença, consistindo em: letargia, anorexia, mucosas pálidas, linfadenomegalia, anemia, leucopenia e trombocitopenia (4,5), sendo estas últimas informações essenciais ao profissional para solicitação de exames mais específicos, como a avaliação de medula óssea.

A medula óssea é um tecido semissólido, localizada em espaço restrito nos ossos longos e chatos, cuja principal função consiste na hematopoiese (6,7). Por ser um tecido multifuncional, as amostras obtidas de aspirados de medula óssea possibilitam a realização de exames diversos, tais como mielograma, citometria de fluxo, imunohistoquímica e, ainda, a citogenética convencional (8). O mielograma, por sua vez, consiste em valiosa ferramenta de caráter investigativo, tendo em vista fomentar o diagnóstico de boa parte das doenças hematológicas, desde desordens primárias a neoplásicas (6).

A aquisição de conhecimentos sobre as alterações em medula óssea, associando-as a achados hematológicos e sorológicos nas infecções por hemoparasitos, favorece a clínica médica e permite a condução de prognósticos e tratamentos mais adequados, assegurando uma melhor qualidade de vida, maior sobrevida e redução potencial de sofrimentos desnecessários aos animais acometidos.

Deste modo, objetivou-se com este estudo analisar os achados hematológicos em sangue periférico e citomorfológicos de medula óssea em cães infectados por Ehrlichia spp. e Anaplasma spp..


Material e métodos

A pesquisa em questão foi aprovada pelo Comitê de Ética no Uso de Animais da Universidade Federal Rural de Pernambuco (Licença n° 037/2016) e foi executada respeitando-se as medidas de proteção e minimização de desconfortos e riscos previsíveis aos animais, assim como os dados gerados e os materiais obtidos dos animais foram preservados e apenas os tutores que assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido participaram da pesquisa.

Foram avaliados 44 cães, machos e fêmeas, de raças e idades variadas, com suspeita clínica de hemoparasitose, procedentes do município de Recife e Região Metropolitana do estado de Pernambuco, atendidos em clínica veterinária particular. Todos os animais suspeitos foram inicialmente submetidos ao exame clínico e à coleta de sangue para a realização de análise sorológica e análise hematológica e a obtenção de amostra de medula óssea para a realização do mielograma.

Após a análise sorológica, os animais foram divididos em grupos: Grupo E (sorologia positiva para Ehrlichia spp.); Grupo A (sorologia positiva para Anaplasma spp.); Grupo C (animais coinfectados − sorologia positiva para Ehrlichia spp. + Anaplasma spp) e Grupo Controle (CT) (animais não reagentes a nenhuma das doenças detectáveis pelo kit utilizado).

Amostras sanguíneas dos animais foram obtidas a partir da venopunção da jugular, sendo 2mL de sangue total acondicionados em tubos de coleta a vácuo contendo EDTA/K3 (Vacuette(r), Greiner BioOne, SP, Brasil) para a realização das análises sorológicas e hematológicas.

A análise sorológica foi realizada empregando-se o kit SNAP 4Dx Plus(r) (IDEXX Laboratories, Inc., Westbrook, ME, USA), conforme recomendações do fabricante. O SNAP 4Dx Plus(r) consiste em teste de triagem baseado no princípio da imunoabsorção enzimática (ELISA) e analisa simultaneamente a presença de anticorpos anti Dirofilaria immitis, B. burgdorferi, A. phagocytophilum, Anaplasma platys, Ehrlichia canis e Ehrlichia ewingii. Entretanto, tendo em vista o objetivo proposto neste estudo, apenas os animais reagentes para Ehrlichia spp. e Anaplasma spp., ou coinfectados, foram analisados.

Considerou-se como resultado positivo qualquer surgimento de cor nos poços indicando a presença de anticorpos anti-A. phagocytophilum e/ou A. platys e/ou do anticorpo anti-E. canis e/ou E. ewingii na amostra. Resultados negativos foram observados com surgimento de cor apenas no ponto de controle positivo.

Após a realização da análise sorológica, as amostras foram refrigeradas e processadas em até 24 horas após a coleta, a fim de assegurar a qualidade do exame. Os parâmetros considerados na pesquisa foram obtidos pelo analisador hematológico automático Sysmex pocH-100iV Diff(tm) (Sysmex Corporation, Kobe, Japão), sendo eles: HEM (hemácias), HGB (hemoglobina), VCM (volume corpuscular médio), CHCM (concentração de hemoglobina corpuscular média), HCT (hematócrito), CTL (contagem total de leucócitos) e PLT (plaquetas), sendo este último parâmetro conferido por meio de esfregaços sanguíneos corados pela técnica de panótico rápido, bem como a pesquisa do hemoparasito. A leitura das lâminas foi realizada por um único observador em microscopia óptica convencional.

As amostras procedentes de medula óssea foram obtidas pela técnica de punção aspirativa, utilizando-se agulha hipodérmica descartável 40 x 16. A colheita das amostras foi realizada a partir da punção esternal, segundo Grindem et al. (9), e processadas de acordo com Raskin e Messick (10), sendo utilizado o panótico rápido para coloração.

A avaliação citomorfológica da medula óssea foi realizada a partir do esfregaço de espículas medulares, obtidos pela técnica de compressão, em microscopia óptica convencional por um único observador, sendo os parâmetros avaliados de acordo com o preconizado por Grindem et al. (9).

Inicialmente as amostras de medula óssea foram avaliadas quanto ao aspecto qualitativo em menor aumento (10x, 20x e 40x), a celularidade foi estimada considerando-se a proporção de células versus gordura presentes nas espículas e a idade do animal. Para cães jovens (até 3 anos), a medula óssea foi considerada normal quando a amostra apresentou 75% de celularidade; para cães adultos (3,1 a 8 anos), 50% de celularidade, e, para cães idosos (acima de 8 anos), 25% de celularidade. A medula foi considerada aplásica quando composta por menos de 10% de células (9).

Megacariócitos foram avaliados quanto a frequência, maturidade e morfologia. A frequência foi estimada avaliando-se cinco campos em objetiva de 10x. A série megacariocítica foi considerada normal quando 5 a 9 megacariócitos foram encontrados por campo, aumentada quando 10 ou mais megacariócitos foram observados por campo e diminuída quando menos de cinco megacariócitos foram observados por campo (9).

Em maior aumento, utilizando objetiva 100x (imersão), estimou-se o índice mieloide-eritroide (M:E). A relação M:E foi considerada normal quando se enquadrou entre 0,5 - 2,5 (6).

Os dados foram expressos em suas frequências relativas e absolutas e medidas de tendência central (média, desvio-padrão e mediana). Inicialmente, realizou-se uma análise de associação por meio do teste de Qui-quadrado de Pearson ou exato de Fisher, quando o primeiro não exequível, utilizando-se os resultados obtidos na sorologia para erliquiose/anaplasmose (reagente ou não reagente) (11). Para a comparação dos dados do eritrograma, leucograma e mielograma, os valores obtidos tiveram sua distribuição avaliada (normalidade) pelo teste de Shapiro-Wilk. As variáveis que apresentaram distribuição normal e que apresentaram seus valores expressos em porcentagem (HT%) foram submetidas à transformação numérica, utilizando-se a metodologia do Arcoseno. Para a comparação dos valores obtidos no eritrograma em cada grupo, os resultados obtidos em cada parâmetro foram submetidos à análise de variância (teste F) e ao teste de Tukey para avaliação de diferenças entre grupos. Em relação ao leucograma e ao mielograma, os resultados obtidos foram submetidos aos testes não paramétricos de Kruskal-Wallis e U de Mann-Withney (12). O programa IBM SPSS Statistics 23.0 foi utilizado para a execução dos cálculos estatísticos e o nível de significância adotado foi de 5,0%.


Resultados

Dos 44 cães com suspeita de hemoparasitose, 28 (63,6%) foram reagentes ao diagnóstico sorológico. Destes, 57,1% (16/28) apresentaram anticorpos anti-Ehrlichia spp., 21,4% (6/28) anticorpos anti-Anaplasma spp. e, em 21,4% (6/28) dos animais, foram detectados anticorpos para ambos os agentes.

A trombocitopenia foi a alteração hematológica mais frequente em cães positivos para Ehrlichia spp., presente em 93,7% (15/16) (p=0,015) dos animais, enquanto a anemia macrocítica e hipocrômica prevaleceu em 66,7% (4/6) (p=0,010) dos animais infectados por Anaplasma spp.. Não foi evidenciada a presença de mórulas na pesquisa de hemoparasitos realizada em lâminas.

Quanto ao mielograma, nos animais reagentes à Ehrlichia spp., detectou-se, em relação à celularidade, a presença de hipoplasia de medula óssea em 62,5% (10/16) (p=0,005) e diminuição do índice M:E em 75,0% (12/16) (p=0,044) dos cães. Nos animais reagentes à Anaplasma spp., evidenciou-se que a hiperplasia da série eritroide foi o achado mais frequente, sendo observado em 50,0% (3/6) (p=0,022) dos cães.

Em relação ao grupo de coinfectados (Ehrlichia spp. + Anaplasma spp.), nenhum dos parâmetros hematológicos avaliados em sangue e medula óssea apresentou associação significativa com a infecção para ambos os agentes (p>0,05).

A comparação entre grupos e parâmetros obtidos no eritrograma, contagem plaquetária, leucograma e mielograma encontra-se disposta nas Tabelas 1, 2 e 3 respectivamente.






No eritrograma, o grupo A apresentou as menores concentrações de CHCM (g/dL) em relação aos demais grupos. Por sua vez, no plaquetograma, as menores concentrações de plaquetas totais foram observadas no grupo E (Tabela 1).

Não houve diferença estatística (p>0,05) entre os grupos em relação aos parâmetros avaliados no leucograma (Tabela 2).

Ao se comparar os resultados do mielograma por grupos, observou-se uma menor concentração da série mieloide, com consequente diminuição do índice M:E nos animais do grupo E. A série linfoide mostrou-se elevada nos grupos E e C quando comparados aos demais grupos (Tabela 3).


Discussão

Em relação à resposta sorológica dos cães diante dos agentes, obteve-se neste estudo maior frequência de animais reagentes para Ehrlichia spp. (57,1%) em relação à Anaplasma spp. (21,4%), divergindo dos achados de Ribeiro et al. (13), que analisaram 182 cães procedentes de Pato Branco ̶ PR e obtiveram 32,9% (60/182) de animais positivos para A. platys e todos negativos para E. canis, com base na Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), assim como dos resultados obtidos por Witter et al. (14), que, utilizando a técnica de PCR associada à Reação de Imunofluorescência Indireta (RIFI), obtiveram 23,3% e 9,1% de animais reagentes para E. canis e A. platys, respectivamente, com base em análise realizada em 77 cães em Cuiabá − MT, além de 5,2% de coinfecção.

Ramos et al. (15) obtiveram índice de coinfecção entre E. canis e A. platys pela nested-PCR em 32% dos 100 animais analisados, procedentes de rotina hospitalar e suspeitos clinicamente de hemoparasitose, diferentemente do observado neste estudo, em que 21,2% dos cães analisados apresentaram sorologia positiva para ambos os agentes.

A divergência encontrada entre este estudo e os realizados por Ribeiro et al. (13), Witter et al. (14) e Ramos et al. (15) pode ser explicada principalmente pelo número e pelas características dos animais amostrados, uma vez que, neste estudo, todos eram clinicamente suspeitos, fase clínica da doença, sendo frequente a detecção de altos índices de animais soropositivos nas fases subclínicas e crônica (16), além de diferenças nas técnicas utilizadas para diagnóstico, uma vez que os autores supracitados empregaram métodos moleculares, diferentemente do teste utilizado neste estudo, baseado em ELISA.

Além de fatores inerentes a amostragem, fase clínica da infecção e técnica empregada, há de se considerar, conforme ressaltado por Ribeiro et al. (13), a diversidade genética do principal vetor transmissor, o Rhipicephalus sanguineus, que, conforme Moraes-Filho et al. (17), se divide em populações distintas com alta e baixa competência vetorial, a depender da distribuição epidemiológica do vetor.

Alterações laboratoriais nas infecções por hemoparasitos são frequentes, no entanto, mostram-se extremamente inconstantes e inespecíficas (18,19). Os animais deste estudo com infecção por E. canis apresentaram uma evidente trombocitopenia (65,2%). Albernaz et al. (20) descreveram a ocorrência de trombocitopenia em 76,7% dos animais. Achados de trombocitopenia em cães infectados por E. canis estão em concordância com outros estudos no Brasil (21, 22, 23,24). Os resultados confirmaram a trombocitopenia como a alteração hematológica mais comum nas infecções por E. canis.

De acordo com Bulla et al. (22), pode-se atribuir a trombocitopenia na erliquiose canina a fatores relacionados a deficiência imunológica, consumo elevado de plaqueta ou diminuição da sua meia vida, bem como ao sequestro pelo sistema mononuclear fagocitário e ainda ao aumento nas concentrações do fator inibidor da migração plaquetária. Sousa (25), por sua vez, ressalta também que o aparecimento da trombocitopenia em animais com erliquiose é promovido pela hipoplasia megacariocítica resultante de processos imunológicos. Essa hipoplasia megacariocítica foi constatada no grupo E deste estudo, entretanto, não apresentou diferença estatística em relação aos demais grupos.

A relação da trombocitopenia com animais infectados por Anaplasma spp. não foi verificada neste estudo, entretanto, de acordo com Harvey (19), considerando-se a fase da infecção em que o animal se encontra, a trombocitopenia pode estar ausente em cães infectados com A. platys, sendo, portanto, um parâmetro inconstante em face de seu comportamento cíclico.

No grupo E, a anemia normocítica normocrômica foi detectada em 68,7% (11/16). Esse valor não foi significativo estatisticamente, porém, consiste em achado condizente com os estudos de Castro et al. (26) e Albernaz et al. (20).

A anemia macrocítica e hipocrômica consistiu na alteração hematológica mais frequente no grupo A., sendo evidenciada em 66,7% dos animais. Esse tipo de anemia é regenerativa durante remissão à perda de sangue ou hemólise aguda. De acordo com Dawson et al. (27) e Harvey (19), os achados hematológicos mais frequentes relacionados com a infecção por Anaplasma platys em cães consistem em anemia moderada, leucopenia temporária e valores plaquetários oscilantes, entretanto, no que se refere à anemia, comumente a associam à forma arregenerativa, exceção ao estudo de Costa (28), que analisou sete cães infectados por A. platys. Destes, três animais apresentaram anemia classificada como macrocítica hipocrômica, de forma similar a este estudo.

Em relação ao leucograma, não houve associação entre os parâmetros avaliados por grupo, bem como não houve diferença estatística entre os grupos analisados. Para todos os grupos, os valores encontraram-se na faixa de normalidade. A variação de resultados obtidos no leucograma é comumente relatada na literatura (29,20). A ausência de alterações leucocitárias pode ocorrer até a quarta semana de infecção, no caso de animais infectados por E. canis, quando, em decorrência da supressão medular, evidencia-se um quadro de leucopenia (26). Além da fase clínica da doença, destacam-se também a patogenicidade do agente, a condição imunológica do animal e a presença de infecções concomitantes.

A coinfecção não demonstrou interferir nos parâmetros hematológicos averiguados. Considerando que os agentes etiológicos alteram os índices de forma antagônica de acordo com a fase da infecção, sugere-se que houve um balanceamento entre diminuição e aumento dos mesmos parâmetros. No estudo realizado por Costa (28), o grupo que apresentava coinfecção não demonstrou agravamento nas alterações do eritrograma, mas apresentou valores médios superiores aos daqueles animais infectados somente por E. canis, ou somente por A. platys, concordando com informações descritas na literatura (19).

Em contraponto a este estudo, Gaunt et al. (30) evidenciaram em animais experimentalmente coinfectados por A. platys e E. canis a presença de trombocitopenia severa e anemia associada a infecção persistente e ressaltaram a importância de que sejam considerados outros agentes patogênicos, conhecidos ou não, veiculados por carrapatos que podem determinar alterações hematológicas significativas.

Quanto ao mielograma, na comparação dos resultados por grupos, o grupo E apresentou menor concentração da série mieloide, com consequente diminuição do índice M:E e aumento na série linfoide. O grupo A apresentou discreta diminuição da série linfoide e, no grupo C, de forma semelhante ao grupo E, observou-se o aumento na série linfoide.

A diminuição do índice M:E observado neste estudo para o grupo E pode indicar o aumento na população de hemácias (hiperplasia eritroide) e/ou diminuição nos precursores granulocíticos (hipoplasia mieloide). Acredita-se que a diminuição da relação M:E encontrada neste estudo decorra de uma hipoplasia do compartimento mieloide, tendo em vista que os casos de depleção, depressão e aplasia dessa série são alterações mais graves de hipoplasia, ou seja, ao somar as diferentes alterações que indicam diminuição da série mielocítica da medula óssea, tem-se mais casos de redução mieloide. Esses achados diferem de Moreira et al. (18), que observaram aumento na relação M:E em cães infectados por E. canis.

O aumento da série linfoide, para os grupos E e C, constatado neste estudo, denota o caráter de resposta imunológica que ocorre nos casos de erliquiose. De acordo com Kallick (31), sugere-se que haja uma estreita relação entre o sistema imune do hospedeiro e a patogenia da erliquiose canina, haja vista que a E. canis atua diretamente nas células precursoras da medula óssea.

O grupo A apresentou hipercelularidade na série eritroide da medula óssea, entretanto, esse achado não foi estatisticamente significativo (p=0,327), quando comparado aos demais grupos. Porém, é um indicador da resposta regenerativa da anemia macrocítica e hipocrômica detectada pelos índices hematimétricos nos animais desse grupo. Apesar de o aumento da série eritroide não ser estatisticamente significativo, justificaria a diminuição da relação M:E (p=0,038) observada neste grupo, quando comparado aos demais, discordando de De Tomassi et al. (32), que classificaram dentro da normalidade essa relação em animais positivos a A. platys pela técnica de PCR. Porém, os autores avaliaram apenas dois animais.

A série mieloide, bem como a relação M:E do grupo controle, apresentou maiores proporções quando comparada aos demais grupos avaliados. Isso não significa que esses parâmetros estão elevados, porém, indica a normalidade esperada para a condição de negatividade, apesar da suspeita clínica, enquanto os grupos positivados demonstraram os mesmos valores diminuídos.

Com base na técnica utilizada, considerou-se que o SNAP 4DX Plus(r) demonstrou resultados satisfatórios na triagem de animais com suspeita clínica de hemoparasitos, quando associado aos resultados hematológicos. A escolha desse método foi fundamentada na necessidade de uma técnica que apresentasse resultados rápidos, otimizando o diagnóstico nas clínicas veterinárias e de fácil interpretação para a detecção de anticorpos no soro, em detrimento de outras técnicas que demandam laboratório equipado, mão de obra especializada e ainda minimizam as limitações relacionadas à subjetividade do observador. Convém ainda ressaltar que o teste não diferencia as espécies de erliquia (ewingii ou canis) e anaplasma (phagocytophilum ou platys), porém, mesmo considerando que as espécies de E. canis e A. platys sejam frequentemente relatadas no Brasil, em relação às outras, optou-se por destacar apenas o gênero.

Em estudo realizado por Stillman et al. (33), o teste apresentou no geral valores acima de 89,0% de sensibilidade e especificidade para todos os agentes detectáveis pela técnica. Ressalta-se que A. phagocytophilum é intimamente relacionado ao A. platys, apontando deste modo a possibilidade da existência de reação cruzada (34). Do mesmo modo, é importante destacar que o teste negativo não é indicativo da ausência do micro-organismo. Alguns fatores, tais como a produção tardia de anticorpos em decorrência da fase da infecção e a inabilidade imunológica do animal em produzir anticorpos suficientemente detectáveis, podem acarretar resultados falso-negativos (35).


Conclusões



Os resultados obtidos neste estudo permitem inferir que a avaliação sorológica associada a métodos laboratoriais que permitam caracterização do estágio da infecção é essencial na caracterização das hemoparasitoses em cães, agregando valor e permitindo uma efetiva consolidação do diagnóstico relacionado a essas enfermidades. A disponibilidade de testes sorológicos rápidos permite ao médico veterinário a instituição da terapêutica mais adequada em tempo hábil.


Agradecimentos


À CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e à Fauna Consultório Veterinário por todo o apoio no desenvolvimento deste trabalho.


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