Teratocronias: multiplicidade temporal e fim da história em François Hartog
DOI:
https://doi.org/10.5216/rth.v29i1.80854Palavras-chave:
François Hartog, Presentismo, Regimes de historicidade, Reinhart Koselleck, heterocronias, tempo históricoResumo
O artigo analisa a historicidade dos conceitos de “presentismo” e “regime de historicidade” formulados por François Hartog. O objetivo não é apresentar um “histórico” dessas noções no interior de sua trajetória intelectual, mas de procurar inscrevê-las no quadro das discussões sobre o estatuto da história que emergiram na França a partir do final da década de 1970. Na primeira parte do artigo, demonstra-se como a elaboração desses conceitos se relaciona com os discursos do fim da história e da política – não no sentido hegeliano, mas como ideia de um tempo sem telos, como forma de racionalidade desprovida de qualquer finalidade. Os conceitos de presentismo e regime de historicidade pertencem a essa historicidade e formam uma tentativa de inscrever o fim da história em um arcabouço teórico e historiográfico. Na segunda parte do artigo, discute-se como esse arcabouço foi moldado a partir das categorias metahistóricas tomadas de Reinhart Koselleck e do modo como o historiador alemão descreveu a configuração do moderno conceito de história. Isso marcou uma virada transcendental na trajetória do historiador francês e no modo como ele havia definido até então a noção de regime de historicidade. Se a experiência moderna do tempo se constitui a partir do afastamento e por meio da tensão entre “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa”, a contemporânea teria surgido de uma separação radical entre essas instâncias, conduzindo ao presentismo. Se antes a história interconectava passado, presente e futuro, doravante, para François Hartog, haveria um abismo separando as três dimensões resultando na crise da história e na perda de orientação que caracterizaria a experiência do homem presentista. A história teria, por essa razão, perdido sua evidência e sua eficácia. O presentismo, assim, não revelaria uma nova ordem do tempo, mas uma desordem do tempo: uma teratocronia. Nesse sentido, não se trataria do fim do regime moderno de historicidade, mas do fim do conceito de história. Sem a história para unificar as dimensões temporais, restaria cronos ao homem presentista, o tempo ordinário. Na parte final, o artigo indica como François Hartog identifica o presentismo à pluralização temporal e à quebra da unicidade do tempo. Não se acredita mais na história. Na tradição sociológica francesa, a crença é o fator social responsável pela criação de liame social; sem ela, restaria o tempo individual impulsionado pela instantaneidade das formas digitais de comunicação com seus efeitos de desconexão social. Daí o estatuto negativo atribuído às heterocronias: fragmentação e desconjunção. O conceito de regime de historicidade pretende, portanto, reaxializar os tempos, agindo como um dispositivo capaz de religá-los em um tempo: o historiador deve ser o liame dos tempos e, assim, tratar da condição patológica e monstruosa do tempo presentista.
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