Corpo-território

mulheres indígenas no Brasil contemporâneo

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5216/hr.v30i2.83815

Palavras-chave:

Mulheres indígenas, Feminismos latino-americanos, História das mulheres, Agencia femenina, Ação Política

Resumo

Este artigo apresenta a trajetória política das mulheres indígenas no Brasil contemporâneo, entre 1980 e 2025, analisando como suas práticas coletivas reconfiguram os feminismos. A partir da linha do tempo elaborada pela Articulação Nacional de Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA) e da experiência de uma das autoras como liderança indígena, mapeia-se a articulação de associações específicas, processos de atravessamento com o Estado, até culminar na organização nacional e massiva das Marchas das Mulheres Indígenas e seus desdobramentos. Em diálogo com a história feminista e os estudos latino-americanos, as categorias de subjetividade política e corpo-território permitem compreender como as mulheres indígenas articulam modos próprios de fazer política que integram resistência, memória coletiva e filosofias ancestrais. Argumenta-se que essa emergência não apenas interpela criticamente a historiografia hegemônica, mas expande o horizonte dos feminismos decoloniais, introduzindo perspectivas animistas e relacionais que ressignificam o político e projetam futuros alter-nativos.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Tchella Maso, Universidade de Brasília (UnB), Brasília, Distrito Federal, Brasil, tchellamaso@gmail.com

Doutora em Estudos Feministas e de Gênero pelo Departamento de Filosofia e Antropologia Social da Universidade do País Vasco. professora no Instituto de Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UNB), pesquisadora de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (PPGRI/UNB) e pesquisadora do INCT Caleidoscópio: Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências.

Alcineide Piratapuya, Universidade de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil, alcineidepiratapuyaunb@gmail.com

Mestranda Piratapuya em Direitos Humanos pela Universidade de Brasília (CEAM/UnB) e internacionalista. Pesquisa violências estruturais, segurança pública e direitos dos povos indígenas. Atua na defesa dos direitos humanos, com experiência junto ao WRI, FOIRN, CNJ e ACNUDH. Integra o Observatório dos Povos Originários e suas Infâncias (CEAM/UnB) e é editora da edição especial da Revista Monções sobre Povos Indígenas na Política Global. Graduada em Relações Internacionais pela UnB.  

Referências

ALMEIDA, Maria Celina Silva de. Mulheres indígenas na história do Brasil: resistências e protagonismos. São Paulo: Elefante, 2019.

ANMIGA – ARTICULAÇÃO NACIONAL DAS MULHERES INDÍGENAS GUERREIRAS DA ANCESTRALIDADE. Manifesto das primeiras brasileiras: as originárias da terra, a mãe do Brasil é indígena. Brasília, 2020. Disponível em: https://anmiga.org/manifesto/. Acesso em: 31 ago. 2025.

ANMIGA – ARTICULAÇÃO NACIONAL DAS MULHERES INDÍGENAS GUERREIRAS DA ANCESTRALIDADE. Quem somos. Brasília, 2021a. Disponível em: https://anmiga.org/quem-somos/. Acesso em: 31 ago. 2025.

ANMIGA – ARTICULAÇÃO NACIONAL DAS MULHERES INDÍGENAS GUERREIRAS DA ANCESTRALIDADE. Pela vida das mulheres, nós por nós, pelas crianças e anciãs, seguimos em marcha! Brasília, 9 set. 2021b. Disponível em: https://anmiga.org/pela-vida-das-mulheres-nos-por-nos-pelas-criancas-e-ancias-seguimos-em-marcha/. Acesso em: 31 ago. 2025.

ANMIGA – ARTICULAÇÃO NACIONAL DAS MULHERES INDÍGENAS GUERREIRAS DA ANCESTRALIDADE. Manifesto Reflorestarmentes: reflorestarmentes de sonhos, afetos, soma, solidariedade, ancestralidade, coletividade e história. Brasília, 10 set. 2021c. Disponível em: https://anmiga.org/manifesto-reflorestarmentes-reflorestarmentes-de-sonhos-afetos-soma-solidariedade-ancestralidade-coletividade-e-historia/. Acesso em: 31 ago. 2025.

ANMIGA – ARTICULAÇÃO NACIONAL DAS MULHERES INDÍGENAS GUERREIRAS DA ANCESTRALIDADE. III Marcha das Mulheres Indígenas 2023. Brasília, 2023. Disponível em: https://anmiga.org/iii-marcha-das-mulheres-indigenas-2023/. Acesso em: 31 ago. 2025.

APOINME – ARTICULAÇÃO DOS POVOS E ORGANIZAÇÕES INDÍGENAS DO NORDESTE, MINAS GERAIS E ESPÍRITO SANTO. Quem somos. [S. l.], [2025]. Disponível em: https://apoinme.org/quem-somos/. Acesso em: 30 ago. 2025.

ASSOCIAÇÃO DE MULHERES INDÍGENAS DO ALTO RIO NEGRO – AMARN. Organizar para construir um futuro melhor. [S. l.], [2025?]. Disponível em: https://amarn.org/https-amarn-org-quemsomos/. Acesso em: 2 jul. 2025.

BANIWA, B.; KAINGANG, J.; MANDULÃO, G. Mulheres: corpos-territórios indígenas em resistência! K. Schwingel (Ed.). [S. l.]: Fundação Luterana de Diaconia; Conselho de Missão entre Povos Indígenas, 2023.

BIDASECA, Karina Andrea; VAZQUEZ LABA, Vanesa Paula. Feminismos y (des)colonialidad: las voces de las mujeres indígenas del sur. Temas de Mujeres, Tucumán, v. 7, p. 1-20, jul. 2011. ISSN 1668-8600.

BRASIL. Ministério da Saúde. Maninha Xukuru Kariri é sinônimo de defesa dos direitos dos indígenas. Brasília, DF: Governo Federal, 25 jul. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2024/julho/maninha-xukuru-kariri-e-sinonimo-de-defesa-dos-direitos-dos-indigenas. Acesso em: 30 ago. 2025.

BRAZÃO, A. Mulheres originárias: reflorestando mentes para a cura da Terra! SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, 14 set. 2021. Disponível em: https://soscorpo.org/?p=14993. Acesso em: 31 ago. 2025.

CHAPARRO MARTÍNEZ, Amneris; SALAZAR PANTOJA, Amy Andrea. Olas y remolinos feministas. México: Universidad Nacional Autónoma de México, Centro de Investigaciones y Estudios de Género, 2022.

CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO. Marcha das Mulheres Indígenas divulga documento final: "lutar pelos nossos territórios é lutar pelo nosso direito à vida". [S. l.], 2019. Disponível em: https://cimi.org.br/2019/08/marcha-mulheres-indigenas-documento-final-lutar-pelos-nossos-territorios-lutar-pelo-nosso-direito-vida/. Acesso em: 31 ago. 2025.

CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO. Dia Internacional da Mulher: a memória e a luta de Maninha Xukuru Kariri; guerreira, intelectual e feminista. [S. l.], 8 mar. 2018. Disponível em: https://cimi.org.br/2018/03/dia-internacional-da-mulher-a-memoria-e-a-luta-de-maninha-xukuru-kariri-guerreira-intelectual-e-feminista/. Acesso em: 30 ago. 2025.

CRENSHAW, Kimberlé. Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence against Women of Color. Stanford Law Review, v. 43, n. 6, p. 1241–1299, 1991.

CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). Políticas culturais e povos indígenas. São Paulo: Unesp, 2016.

DEL PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no Brasil. Coord. de textos Carla Bassanezi. 7. ed. São Paulo: Contexto, 2004.

DEPARTAMENTO DE MULHERES INDÍGENAS DO RIO NEGRO/FOIRN. As mães do DMIRN: conquistas e desafios (2002–2022). Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2023.

ENCONTRO NACIONAL DE MULHERES INDÍGENAS DO BRASIL. Relatório do 1º Encontro Nacional de Mulheres Indígenas do Brasil. São Paulo: Instituto Socioambiental, 1995. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/documentos/relatorio-do-1o-encontro-nacional-de-mulheres-indigenas-do-brasil. Acesso em: 31 ago. 2025.

FLEURY, L. C.; ALMEIDA, J. A construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte: conflito ambiental e o dilema do desenvolvimento. Ambiente & Sociedade, São Paulo, v. 16, n. 4, p. 141–156, 2013. DOI: https://doi.org/10.1590/S1414-753X2013000400009.

FUNDO BRASIL DE DIREITOS HUMANOS. A força da mulher indígena no caminhar da APOINME. [S. l.], 2021. Disponível em: https://www.fundobrasil.org.br/noticia/mulheres-indigenas-da-apoinme-lutam-por-voz-e-direitos/. Acesso em: 30 ago. 2025.

GAGO, V. A potência feminista ou o desejo de transformar tudo. São Paulo: Elefante, 2020.

GARGALLO, Francesca. Feminismos desde Abya Yala: ideas y proposiciones de las mujeres de 607 pueblos en nuestra América. Ciudad de México: Corte y Confección, 2014.

GUARDIA, Sara Beatriz. La mujer en la historiografía latinoamericana. RUNA YACHACHIY – Revista digital, Berlim, 2023. ISSN 2510-1242.

GUZMÁN, Adriana. Descolonizar la memoria. Descolonizar los feminismos. La Paz: Tarpuna Muya, 2019.

INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL. Tuíre Kayapó | Corpo é território! #ElasQueLutam Especial. YouTube, 5 abr. 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Wf1FVFjrndA. Acesso em: 01 ago. 2025.

INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL; ARTICULAÇÃO NACIONAL DAS MULHERES INDÍGENAS GUERREIRAS DA ANCESTRALIDADE. Mapa das organizações das mulheres indígenas no Brasil – 2024. J. Kaingang e L. Prado (Ed.). São Paulo: Instituto Socioambiental, 2024. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/mapas-e-cartas-topograficas/brasil/mapa-das-organizacoes-das-mulheres-indigenas-no-brasil. Acesso em: 02 ago. 2025.

JULIÃO, Cristiane Pankararu; PROCÓPIO DA SILVA, Sandra; MASO, Tchella Fernandes. Nosso corpo, nosso espírito. In: PRADO, Débora; PAVESE, Carolina; SELIS, Lucia (org.). Manual da internacionalista recatada. São Paulo: Hucitec, 2022. p. 1-20.

LUGONES, María. Rumo a um feminismo descolonial. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 22, n. 3, p. 935-952, set./dez. 2014.

MACEDO, Michelle Reis de. "Mulheres indígenas, organizem-se! Mesmo que seja em suas casas": as ações político-pedagógicas do Grupo Mulher-Educação Indígena (décadas de 1980 e 1990). In: KARLONI, Carla; MAGALHÃES, Lívia (org.). Mulheres no Brasil republicano. Curitiba: CRV, 2021. p. 355-398.

MARCOLINO, Maria Luisa Soares. Representatividade, resistência e poder: Nancy Potiguara, a primeira mulher indígena eleita prefeita no Brasil. In: ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA AMÉRICA LATINA E BRASIL: ENTRE ONDAS PROGRESSISTAS E REAÇÕES CONSERVADORAS, 21., 2024, Campina Grande. Anais [...]. Campina Grande: UEPB, 2024. p. 1-15.

MASO, Tchella Fernandes; SELIS, Lara Martim Rodrigues (org.). Feminismos outros na América Latina: as perspectivas indígenas e comunitárias. Belo Horizonte: Fino Traço, 2024.

MASO, Tchella; TERENA, Linda; VERON, Valdelice; URT, João Nackle. Decolonial portraits: news from the frontline, Mato Grosso do Sul, Brazil. International Feminist Journal of Politics, v. 24, n. 1, p. 156–173, 2021.

McCLINTOCK, Anne. Couro imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.

MILLÁN, Márgara (coord.). Más allá del feminismo: caminos para andar. México, D. F.: Red de Feminismos Descoloniales, 2014. 328 p. ISBN 978-607-96108-2-1.

ONU MULHERES BRASIL. A voz das mulheres indígenas no Acampamento Terra Livre. Brasília, 2019. Disponível em: https://www.onumulheres.org.br/noticias/a-voz-das-mulheres-indigenas-no-acampamento-terra-livre/. Acesso em: 31 ago. 2025.

OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. The Invention of Women: making an African sense of western gender discourses. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1997.

POTIGUARA, Eliane. A terra é a mãe do índio. Rio de Janeiro: GRUMIN – Grupo Mulher-Educação Indígena, 1989.

RAGO, Margareth. A aventura de contar-se: feminismos, escrita de si e invenções da subjetividade. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.

RAMINELLI, Ronald. Eva Tupinambá. In: DEL PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no Brasil. Coord. de textos Carla Bassanezi. 7. ed. São Paulo: Contexto, 2004. p. 10-36.

RIVERA CUSICANQUI, Silvia. Ch'ixinakax utxiwa: una reflexión sobre prácticas y discursos descolonizadores. Buenos Aires: Tinta Limón, 2010. 80 p.

RODRIGUES, Léia do Vale. Mulheres indígenas, gênero e diversidade cultural: a institucionalização da temática de gênero na Funai, a partir da perspectiva autoetnográfica. 2019. Dissertação (Mestrado em Direitos Humanos e Cidadania) – Universidade de Brasília, Brasília, 2019.

SACCHI, Ana María R. de. Mulheres indígenas e participação política: a discussão de gênero nas organizações de mulheres indígenas. Revista Anthropológicas, Recife, v. 14, n. 1-2, p. 95–110, 2003.

SCHILD, Joziléia Daniza Jagso Inacio Jacobsen. Mulheres Kaingang, seus caminhos, políticas e redes na TI Serrinha. 2016. 165 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2016. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/180404. Acesso em: 30 ago. 2025.

SILVA, A. V. S. Entre invisibilidade e protagonismo: participação política de Maninha Xukuru Kariri no movimento indígena (1966–2006). 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2024. Disponível em: https://www.repositorio.ufal.br/handle/123456789/16483. Acesso em: 30 ago. 2025.

SOIHET, Rachel. O protagonismo feminino na história. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

VIEIRA, Ivania. Mulheres indígenas do Alto Rio Negro promovem encontro sobre ativismo. Instituto Socioambiental (ISA), Povos Indígenas no Brasil, 2017. Disponível em: https://pib.socioambiental.org/es/Not%C3%ADcias?id=177614. Acesso em: 31 ago. 2025.

VIEIRA, Nanah. Corpo-território indígena mulher nas universidades brasileiras: a experiência vivida da colonialidade no cotidiano acadêmico e a insurgência na autoafirmação étnica. Revista Ñanduty, [S. l.], v. 12, n. 19, p. 52–76, 2024.

VIVEROS VIGOYA, Mara; MORENO, Amalia; LUGONES, María; CURIEL, Ochy; MILLÁN, Márgara; SEGATO, Rita Laura (org.). Desordenando el género/Desordenando las sexualidades. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, 2010.

WALSH, Catherine. Sobre o gênero e seu mundo-muito-outro. Epistemologias do Sul: Pensamento Social e Político em/desde/para América Latina, Caribe, África e Ásia, Foz do Iguaçu, v. 5, n. 2, p. 188–201, 2021.

Downloads

Publicado

2026-06-03 — Atualizado em 2026-06-15

Versões

Como Citar

MASO, Tchella; PIRATAPUYA, Alcineide. Corpo-território: mulheres indígenas no Brasil contemporâneo . História Revista, Goiânia, v. 30, n. 2, p. 03–22, 2026. DOI: 10.5216/hr.v30i2.83815. Disponível em: https://revistas.ufg.br/historia/article/view/83815. Acesso em: 18 jun. 2026.