Corpo-território
mulheres indígenas no Brasil contemporâneo
DOI:
https://doi.org/10.5216/hr.v30i2.83815Palavras-chave:
Mulheres indígenas, Feminismos latino-americanos, História das mulheres, Agencia femenina, Ação PolíticaResumo
Este artigo apresenta a trajetória política das mulheres indígenas no Brasil contemporâneo, entre 1980 e 2025, analisando como suas práticas coletivas reconfiguram os feminismos. A partir da linha do tempo elaborada pela Articulação Nacional de Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA) e da experiência de uma das autoras como liderança indígena, mapeia-se a articulação de associações específicas, processos de atravessamento com o Estado, até culminar na organização nacional e massiva das Marchas das Mulheres Indígenas e seus desdobramentos. Em diálogo com a história feminista e os estudos latino-americanos, as categorias de subjetividade política e corpo-território permitem compreender como as mulheres indígenas articulam modos próprios de fazer política que integram resistência, memória coletiva e filosofias ancestrais. Argumenta-se que essa emergência não apenas interpela criticamente a historiografia hegemônica, mas expande o horizonte dos feminismos decoloniais, introduzindo perspectivas animistas e relacionais que ressignificam o político e projetam futuros alter-nativos.
Downloads
Referências
ALMEIDA, Maria Celina Silva de. Mulheres indígenas na história do Brasil: resistências e protagonismos. São Paulo: Elefante, 2019.
ANMIGA – ARTICULAÇÃO NACIONAL DAS MULHERES INDÍGENAS GUERREIRAS DA ANCESTRALIDADE. Manifesto das primeiras brasileiras: as originárias da terra, a mãe do Brasil é indígena. Brasília, 2020. Disponível em: https://anmiga.org/manifesto/. Acesso em: 31 ago. 2025.
ANMIGA – ARTICULAÇÃO NACIONAL DAS MULHERES INDÍGENAS GUERREIRAS DA ANCESTRALIDADE. Quem somos. Brasília, 2021a. Disponível em: https://anmiga.org/quem-somos/. Acesso em: 31 ago. 2025.
ANMIGA – ARTICULAÇÃO NACIONAL DAS MULHERES INDÍGENAS GUERREIRAS DA ANCESTRALIDADE. Pela vida das mulheres, nós por nós, pelas crianças e anciãs, seguimos em marcha! Brasília, 9 set. 2021b. Disponível em: https://anmiga.org/pela-vida-das-mulheres-nos-por-nos-pelas-criancas-e-ancias-seguimos-em-marcha/. Acesso em: 31 ago. 2025.
ANMIGA – ARTICULAÇÃO NACIONAL DAS MULHERES INDÍGENAS GUERREIRAS DA ANCESTRALIDADE. Manifesto Reflorestarmentes: reflorestarmentes de sonhos, afetos, soma, solidariedade, ancestralidade, coletividade e história. Brasília, 10 set. 2021c. Disponível em: https://anmiga.org/manifesto-reflorestarmentes-reflorestarmentes-de-sonhos-afetos-soma-solidariedade-ancestralidade-coletividade-e-historia/. Acesso em: 31 ago. 2025.
ANMIGA – ARTICULAÇÃO NACIONAL DAS MULHERES INDÍGENAS GUERREIRAS DA ANCESTRALIDADE. III Marcha das Mulheres Indígenas 2023. Brasília, 2023. Disponível em: https://anmiga.org/iii-marcha-das-mulheres-indigenas-2023/. Acesso em: 31 ago. 2025.
APOINME – ARTICULAÇÃO DOS POVOS E ORGANIZAÇÕES INDÍGENAS DO NORDESTE, MINAS GERAIS E ESPÍRITO SANTO. Quem somos. [S. l.], [2025]. Disponível em: https://apoinme.org/quem-somos/. Acesso em: 30 ago. 2025.
ASSOCIAÇÃO DE MULHERES INDÍGENAS DO ALTO RIO NEGRO – AMARN. Organizar para construir um futuro melhor. [S. l.], [2025?]. Disponível em: https://amarn.org/https-amarn-org-quemsomos/. Acesso em: 2 jul. 2025.
BANIWA, B.; KAINGANG, J.; MANDULÃO, G. Mulheres: corpos-territórios indígenas em resistência! K. Schwingel (Ed.). [S. l.]: Fundação Luterana de Diaconia; Conselho de Missão entre Povos Indígenas, 2023.
BIDASECA, Karina Andrea; VAZQUEZ LABA, Vanesa Paula. Feminismos y (des)colonialidad: las voces de las mujeres indígenas del sur. Temas de Mujeres, Tucumán, v. 7, p. 1-20, jul. 2011. ISSN 1668-8600.
BRASIL. Ministério da Saúde. Maninha Xukuru Kariri é sinônimo de defesa dos direitos dos indígenas. Brasília, DF: Governo Federal, 25 jul. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2024/julho/maninha-xukuru-kariri-e-sinonimo-de-defesa-dos-direitos-dos-indigenas. Acesso em: 30 ago. 2025.
BRAZÃO, A. Mulheres originárias: reflorestando mentes para a cura da Terra! SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, 14 set. 2021. Disponível em: https://soscorpo.org/?p=14993. Acesso em: 31 ago. 2025.
CHAPARRO MARTÍNEZ, Amneris; SALAZAR PANTOJA, Amy Andrea. Olas y remolinos feministas. México: Universidad Nacional Autónoma de México, Centro de Investigaciones y Estudios de Género, 2022.
CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO. Marcha das Mulheres Indígenas divulga documento final: "lutar pelos nossos territórios é lutar pelo nosso direito à vida". [S. l.], 2019. Disponível em: https://cimi.org.br/2019/08/marcha-mulheres-indigenas-documento-final-lutar-pelos-nossos-territorios-lutar-pelo-nosso-direito-vida/. Acesso em: 31 ago. 2025.
CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO. Dia Internacional da Mulher: a memória e a luta de Maninha Xukuru Kariri; guerreira, intelectual e feminista. [S. l.], 8 mar. 2018. Disponível em: https://cimi.org.br/2018/03/dia-internacional-da-mulher-a-memoria-e-a-luta-de-maninha-xukuru-kariri-guerreira-intelectual-e-feminista/. Acesso em: 30 ago. 2025.
CRENSHAW, Kimberlé. Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence against Women of Color. Stanford Law Review, v. 43, n. 6, p. 1241–1299, 1991.
CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). Políticas culturais e povos indígenas. São Paulo: Unesp, 2016.
DEL PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no Brasil. Coord. de textos Carla Bassanezi. 7. ed. São Paulo: Contexto, 2004.
DEPARTAMENTO DE MULHERES INDÍGENAS DO RIO NEGRO/FOIRN. As mães do DMIRN: conquistas e desafios (2002–2022). Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2023.
ENCONTRO NACIONAL DE MULHERES INDÍGENAS DO BRASIL. Relatório do 1º Encontro Nacional de Mulheres Indígenas do Brasil. São Paulo: Instituto Socioambiental, 1995. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/documentos/relatorio-do-1o-encontro-nacional-de-mulheres-indigenas-do-brasil. Acesso em: 31 ago. 2025.
FLEURY, L. C.; ALMEIDA, J. A construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte: conflito ambiental e o dilema do desenvolvimento. Ambiente & Sociedade, São Paulo, v. 16, n. 4, p. 141–156, 2013. DOI: https://doi.org/10.1590/S1414-753X2013000400009.
FUNDO BRASIL DE DIREITOS HUMANOS. A força da mulher indígena no caminhar da APOINME. [S. l.], 2021. Disponível em: https://www.fundobrasil.org.br/noticia/mulheres-indigenas-da-apoinme-lutam-por-voz-e-direitos/. Acesso em: 30 ago. 2025.
GAGO, V. A potência feminista ou o desejo de transformar tudo. São Paulo: Elefante, 2020.
GARGALLO, Francesca. Feminismos desde Abya Yala: ideas y proposiciones de las mujeres de 607 pueblos en nuestra América. Ciudad de México: Corte y Confección, 2014.
GUARDIA, Sara Beatriz. La mujer en la historiografía latinoamericana. RUNA YACHACHIY – Revista digital, Berlim, 2023. ISSN 2510-1242.
GUZMÁN, Adriana. Descolonizar la memoria. Descolonizar los feminismos. La Paz: Tarpuna Muya, 2019.
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL. Tuíre Kayapó | Corpo é território! #ElasQueLutam Especial. YouTube, 5 abr. 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Wf1FVFjrndA. Acesso em: 01 ago. 2025.
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL; ARTICULAÇÃO NACIONAL DAS MULHERES INDÍGENAS GUERREIRAS DA ANCESTRALIDADE. Mapa das organizações das mulheres indígenas no Brasil – 2024. J. Kaingang e L. Prado (Ed.). São Paulo: Instituto Socioambiental, 2024. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/mapas-e-cartas-topograficas/brasil/mapa-das-organizacoes-das-mulheres-indigenas-no-brasil. Acesso em: 02 ago. 2025.
JULIÃO, Cristiane Pankararu; PROCÓPIO DA SILVA, Sandra; MASO, Tchella Fernandes. Nosso corpo, nosso espírito. In: PRADO, Débora; PAVESE, Carolina; SELIS, Lucia (org.). Manual da internacionalista recatada. São Paulo: Hucitec, 2022. p. 1-20.
LUGONES, María. Rumo a um feminismo descolonial. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 22, n. 3, p. 935-952, set./dez. 2014.
MACEDO, Michelle Reis de. "Mulheres indígenas, organizem-se! Mesmo que seja em suas casas": as ações político-pedagógicas do Grupo Mulher-Educação Indígena (décadas de 1980 e 1990). In: KARLONI, Carla; MAGALHÃES, Lívia (org.). Mulheres no Brasil republicano. Curitiba: CRV, 2021. p. 355-398.
MARCOLINO, Maria Luisa Soares. Representatividade, resistência e poder: Nancy Potiguara, a primeira mulher indígena eleita prefeita no Brasil. In: ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA AMÉRICA LATINA E BRASIL: ENTRE ONDAS PROGRESSISTAS E REAÇÕES CONSERVADORAS, 21., 2024, Campina Grande. Anais [...]. Campina Grande: UEPB, 2024. p. 1-15.
MASO, Tchella Fernandes; SELIS, Lara Martim Rodrigues (org.). Feminismos outros na América Latina: as perspectivas indígenas e comunitárias. Belo Horizonte: Fino Traço, 2024.
MASO, Tchella; TERENA, Linda; VERON, Valdelice; URT, João Nackle. Decolonial portraits: news from the frontline, Mato Grosso do Sul, Brazil. International Feminist Journal of Politics, v. 24, n. 1, p. 156–173, 2021.
McCLINTOCK, Anne. Couro imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.
MILLÁN, Márgara (coord.). Más allá del feminismo: caminos para andar. México, D. F.: Red de Feminismos Descoloniales, 2014. 328 p. ISBN 978-607-96108-2-1.
ONU MULHERES BRASIL. A voz das mulheres indígenas no Acampamento Terra Livre. Brasília, 2019. Disponível em: https://www.onumulheres.org.br/noticias/a-voz-das-mulheres-indigenas-no-acampamento-terra-livre/. Acesso em: 31 ago. 2025.
OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. The Invention of Women: making an African sense of western gender discourses. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1997.
POTIGUARA, Eliane. A terra é a mãe do índio. Rio de Janeiro: GRUMIN – Grupo Mulher-Educação Indígena, 1989.
RAGO, Margareth. A aventura de contar-se: feminismos, escrita de si e invenções da subjetividade. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.
RAMINELLI, Ronald. Eva Tupinambá. In: DEL PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no Brasil. Coord. de textos Carla Bassanezi. 7. ed. São Paulo: Contexto, 2004. p. 10-36.
RIVERA CUSICANQUI, Silvia. Ch'ixinakax utxiwa: una reflexión sobre prácticas y discursos descolonizadores. Buenos Aires: Tinta Limón, 2010. 80 p.
RODRIGUES, Léia do Vale. Mulheres indígenas, gênero e diversidade cultural: a institucionalização da temática de gênero na Funai, a partir da perspectiva autoetnográfica. 2019. Dissertação (Mestrado em Direitos Humanos e Cidadania) – Universidade de Brasília, Brasília, 2019.
SACCHI, Ana María R. de. Mulheres indígenas e participação política: a discussão de gênero nas organizações de mulheres indígenas. Revista Anthropológicas, Recife, v. 14, n. 1-2, p. 95–110, 2003.
SCHILD, Joziléia Daniza Jagso Inacio Jacobsen. Mulheres Kaingang, seus caminhos, políticas e redes na TI Serrinha. 2016. 165 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2016. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/180404. Acesso em: 30 ago. 2025.
SILVA, A. V. S. Entre invisibilidade e protagonismo: participação política de Maninha Xukuru Kariri no movimento indígena (1966–2006). 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2024. Disponível em: https://www.repositorio.ufal.br/handle/123456789/16483. Acesso em: 30 ago. 2025.
SOIHET, Rachel. O protagonismo feminino na história. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
VIEIRA, Ivania. Mulheres indígenas do Alto Rio Negro promovem encontro sobre ativismo. Instituto Socioambiental (ISA), Povos Indígenas no Brasil, 2017. Disponível em: https://pib.socioambiental.org/es/Not%C3%ADcias?id=177614. Acesso em: 31 ago. 2025.
VIEIRA, Nanah. Corpo-território indígena mulher nas universidades brasileiras: a experiência vivida da colonialidade no cotidiano acadêmico e a insurgência na autoafirmação étnica. Revista Ñanduty, [S. l.], v. 12, n. 19, p. 52–76, 2024.
VIVEROS VIGOYA, Mara; MORENO, Amalia; LUGONES, María; CURIEL, Ochy; MILLÁN, Márgara; SEGATO, Rita Laura (org.). Desordenando el género/Desordenando las sexualidades. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, 2010.
WALSH, Catherine. Sobre o gênero e seu mundo-muito-outro. Epistemologias do Sul: Pensamento Social e Político em/desde/para América Latina, Caribe, África e Ásia, Foz do Iguaçu, v. 5, n. 2, p. 188–201, 2021.
Downloads
Publicado
Versões
- 2026-06-15 (3)
- 2026-06-15 (2)
- 2026-06-03 (1)
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 História Revista

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.
Declaração de Direito Autoral
Concedo à História Revista o direito de primeira publicação da versão revisada do meu artigo, licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution, que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.
Afirmo ainda que meu artigo não está sendo submetido a outra publicação e não foi publicado na íntegra em outro periódico, assumindo total responsabilidade por sua originalidade, podendo incidir sobre mim eventuais encargos decorrentes de reivindicação, por parte de terceiros, em relação à autoria do mesmo.

