Revista Eletrônica de Enfermagem - Vol. 03, Num. 02, 2001 - ISSN 1518-1944
Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás - Goiânia (GO - Brasil).
 

AUTONOMIA E CAPACIDADE DECISÓRIA DOS IDOSOS DE BAIXA RENDA: UMA PROBLEMÁTICA A SER CONSIDERADA NA SAÚDE DO IDOSO.

Zenith Rose dos Santos Pires, Maria Josefina da Silva*


PIRES, Z. R. S.; SILVA, M. J. - Autonomia e capacidade decisória dos idosos de baixa renda: uma problemática a ser considerada na saúde do idoso. Revista Eletrônica de Enfermagem (online), Goiânia, v.3, n.2, jul-dez. 2001. Disponível: http://www.revistas.ufg.br/index.php/fen


Resumo - Este trabalho aborda a autonomia, nas atividades de vida diária de um grupo de pessoas idosas residentes em uma comunidade de baixa renda. O objetivo central do trabalho é avaliar esses níveis de autonomia nas atividades de vida diária, com relação às atividades instrumentais, afetivas, sociais, físicas e espirituais, estendidas dita avaliação à capacidade de decisão na sua vida cotidiana. Trata-se de um estudo exploratório e análise quantitativa, com aspectos qualitativos. A pesquisa foi desenvolvida em uma área do Centro de Desenvolvimento Familiar, unidade de atendimento em atenção primária da Universidade Federal do Ceará, vinculada à Pró-reitoria de Extensão. A autonomia constitui um elemento fundamental para a manutenção da saúde do idoso, sendo esse um dos objetivos da Política Nacional do Idoso - PNI. Podemos concluir que a maioria dos idosos entrevistados é autônoma e capaz de realizar suas atividades cotidianas, mesmo sendo portadores de alguma doença crônico-degenerativa. A família exerce uma função importante na manutenção dessa autonomia e também na capacidade de decisão dessa clientela.
Unitermos
: Idoso, Autonomia, Família, Atividade de vida diária.

Abstract - This study discusses autonomy in daily activities of a group of aged people who live in a low-income community. The main objective of this study is to evaluate the autonomy levels in daily activities concerning instrumental, affective, social, physical and spiritual aspects, including the decision-making skill in daily routine. It is an exploratory study and a quantitative analysis with qualitative aspects. The research was developed in an area of the Centro de Desenvolvimento Familiar, assistance unit in primary attention of the Universidade Federal do Ceará, linked to the Pró-Reitoria de Extensão. Autonomy is a fundamental element for maintaining the health of the aged and that is one of the objectives of the Política Nacional do Idoso (PNI). We may conclude that most of the interviewed people, even those who suffer from chronic-degenerative illnesses, are autonomous and able to accomplish their daily activities. The family has an important role in maintaining their autonomy and decision-making skill. 
Key-words: The Aged, Autonomy, Family, Daily Activity;

1 - O contexto da situação do Idoso

Com a evolução da sociedade industrial, o ser humano passou a ser valorizado, a partir da sua capacidade de produzir. Dessa forma o envelhecimento é visto como um estado de decadência, em que o idoso é levado a uma posição de inferioridade. A Organização das Nações Unidas - ONU, desde 1982, considera idoso o indivíduo com idade igual ou superior a 60 anos, isso para países em desenvolvimento. No Brasil, a Lei nº 8.842/94, em seu art. 2, inciso I, adota essa mesma faixa etária como entrada na velhice.

A importância de delimitar a idade, a partir da qual a pessoa passa a ser considerada idosa, deve-se ao fato de que as políticas sociais e de saúde são dirigidas, em sua maioria, a grupos etários, como criança, adolescente e idoso. Esta delimitação de idoso e não-idoso, é meramente formal, uma vez que o envelhecimento é um evento individual. (Camarano, 1999).

Nos países desenvolvidos, o envelhecimento populacional aconteceu de modo gradual,  em um período de 70 anos, com queda gradativa da mortalidade, conseqüente à melhoria da qualidade de vida, dadas as melhores condições nutricionais, ambientais, de trabalho, de saneamento e de moradia. Já nos países em desenvolvimento, o envelhecimento populacional ocorreu a partir da década de 60, em função do acréscimo na expectativa de vida, como resultado das medidas pontuais de proteção à saúde, programas de saneamento e erradicação de algumas doenças (Kalache, 1996).

O número de pessoas com 60 anos ou mais, tem aumentado progressivamente nos países da América Latina, principalmente em Cuba, Argentina, Uruguai, Chile e Brasil. Segundo dados da PNAD (1997), os idosos representam 8,7 % da população brasileira. Esta proporção é inferior a de alguns países desenvolvidos, que chega a alcançar mais de 15 % da população total. Mesmo assim, a população de idosos do Brasil é uma das maiores do mundo, correspondendo a 13,5 milhões de pessoas. Para alcançar esta população numerosa, o país passou por dois processos: a transição demográfica, que foi determinada pela redução da taxa de mortalidade e da taxa de fecundidade; e a transição epidemiológica, pelas alterações nos padrões de saúde e doença e nas interações desses padrões com seus determinantes e conseqüências de ordem demográfica, econômica e sociológica (Veras, 1994).

O envelhecimento da população tem como reflexo o aumento nos gastos com aposentadorias e pensões, somando-se a isso o atendimento as outras necessidades básicas da população, ao exemplo de saúde, educação e assistência social. O custo com a população idosa é bem maior, pois os problemas de saúde que eles apresentam são, na sua maioria, de natureza crônica e, quando acontece de se estender por muitos anos, a tendência é levar à incapacidades.

No Brasil, o processo de envelhecimento está ocorrendo de maneira muito rápida, desde o final da década de 60,justo em um momento de crise econômica em que as desigualdades e os problemas sociais parecem recrudescer. Fica claro que o sistema de saúde, neste país, necessita de uma redefinição de prioridades, já que as principais causas de morte são, hoje, são as doenças crônicas, características de países desenvolvidos (Ferrari, 1999).

Apesar das intervenções de saúde pública terem aumentado a expectativa de vida dos brasileiros, isto não significa dizer que melhoramos sua qualidade de vida. Necessitamos ainda de recursos, para tratar doenças, como tuberculose, hanseníase, vacinar as crianças, assegurar água potável e sistema de esgoto à população mais carente, dispensando especial atenção à problemática do idoso.

Em 04 de janeiro de 1994 foi aprovada a Lei nº 8.842, regulamentada pelo Decreto nº 1.948, de 03 de julho de 1996, dispondo sobre a Política Nacional do Idoso (P.N.I.). Tal política passa a integrar o Programa Nacional de Direitos Humanos, publicado em março de 1996, tendo como princípio, o fato de o envelhecimento dizer respeito à sociedade, em geral, o que reforça a importância de garantir direitos de cidadania e proteger os idosos de quaisquer formas de discriminação. Em meados de 1997, o Ministro da Previdência e Assistência Social consolidou parcerias com organizações de idosos, para editar o Plano Integrado de Ação Governamental para o Desenvolvimento da Política Nacional do Idoso ( PAG - PNI ).

No final de 1993, foi aprovada a Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS)- Lei nº 8.882/83 contemplando a organização das políticas de assistência, nas três esferas do governo, dispondo, também, sobre medidas específicas, ao exemplo da garantia de um salário-mínimo de benefício mensal ao idoso que comprovadamente não possuir meios de prover sua própria manutenção ou tê-la provida por sua família (art. 2, V, e art. 20) (Ceará, 1997).

A Política Nacional do Idoso tem como objetivo assegurar os direitos sociais do idoso, criando condições para promover sua autonomia, integração e participação efetiva na sociedade (Brasil, 1994). O Programa Nacional de Saúde do Idoso é um detalhamento da PNI e tem como objetivo promover a saúde do idoso, possibilitando, ao máximo, sua expectativa de vida ativa na comunidade, junto à família, e com níveis altos de função e autonomia (Brasil, 1998).

A P.N.I. confere especial destaque ao papel da família, no cuidado e manutenção da autonomia do idoso. Apesar da importância atribuída, a participação da família, nesse cuidado, torna-se difícil, tanto pela condição financeira, como também pela falta de informação acerca do processo de envelhecimento e sobre como cuidar do idoso. Sendo a família um componente essencial no alcance do seu bem-estar, proporcionando-lhe apoio emocional e econômico, é importante que a manutenção desse vínculo seja assegurada. Anderson (1985) destaca a importância do cuidado da família na promoção da integração do idoso uma vez que o cuidador é também filho, esposa(o), enquanto o tal ancião(ã) executa o papel de pai/mãe, contrariamente ao que acontece em uma instituição, em que ele é apenas o receptor de um cuidado profissional. Daí ser importante manter o idoso na família para que não perca seus laços afetivos, nem caia no isolamento social.

O interesse em estudar a população idosa, parte da constatação de que ser ela hoje, a que mais cresce em todo o mundo. Este crescimento afeta as políticas públicas, trazendo novas demandas para o Estado, sociedade e a família. Um dos aspectos mais difíceis, na velhice, é conviver com as perdas, com as dificuldades impostas pelas limitações do corpo e que o ambiente social proporciona. Essas perdas se intensificam em situações como: a aposentadoria; perda do papel social, com o surgimento de doenças crônicas, aliadas a problemas financeiros;  proteção exagerada da família, restringido suas atividades, pelo mito de que por ser velho, não tem condição de continuar executando atividades necessárias à manutenção de sua vida e tomar suas próprias decisões, ou pelo abandono, dentro do próprio lar, ou em casas de repouso.

Ao que se sabe, a perda da autonomia representa, para os idosos, é uma das maiores preocupações. Para esta população, saúde está relacionada, diretamente, com independência, capacidade para fazer as coisas, trabalhar, poder ir e vir, mesmo portando algumas doenças crônicas. Mantendo-se os idosos independentes e autônomos, as dificuldades serão menores, tanto para si quanto para a família e para a sociedade.

A autonomia relativa às atividades da vida diária é colocada como algo fundamental para a manutenção da saúde do idoso em diversos trabalhos analisados (OPAS, 1898, Jimenez et al. 1993; Moragas, 1997; Berger e Mailloux-Poirier, 1995).

A dependência e a incapacidade que observamos em pessoas acima de 80 anos, não são conseqüência apenas do envelhecimento, mas resultam, isso sim, de enfermidades, perda de atividade física e fatores sociais, como a vida em asilos.

Moragas (1997) descreve um rol de atividades da vida diária que o idoso desempenha, para satisfação de suas necessidades tendo como referência um estudo desenvolvido pela Sociedade Espanhola de Geriatria. Conforme sua natureza, são elas: atividades de vida diária; físicas e manuais; sensoriais; psíquicas; recreativas; esportivas educacionais e culturais; ecológicas; ideológico-políticas; voluntariado; econômicas; espirituais e religiosas.

O envelhecimento manifesta-se, assim, através de um declínio das funções dos diversos órgãos, tendendo a ser linear em função do tempo, sem definir um ponto exato de transição, como ocorre nas outras fases da vida. Como regra geral, ocorre a cada ano, a partir dos 30 anos de idade, perda de 1 % de função. O ritmo de declínio das funções varia não só de um órgão para outro, mas, também, de um idoso para outro idoso da mesma idade. O envelhecimento é, portanto, um fenômeno universal e comum a quase todos os animais, tendo o seu estudo sido negligenciado durante algum tempo pelo que os mecanismos envolvidos ainda se mostram obscuro (Pascoal (1996); Berger e Mailloux-Poirier (1995). Segundo os autores, as alterações decorrentes do envelhecimento desenvolvem-se a um ritmo diferente para cada pessoa, e dependem de fatores externos como estilo de vida, atividades e ambiente, bem assim de fatores internos, como a bagagem genética e o estado de saúde.

O estudo da qualidade de vida, em indivíduos idosos, representa um desafio dos novos tempos no instante em que contempla a experiência do envelhecimento, visando à melhoria do seu  cotidiano, indo além das oportunidades oferecidas meramente pelo acaso.

Este estudo tem, como objetivo: identificar os níveis de autonomia dos idosos residentes em uma comunidade de baixa renda, desdobrando-se este em outros que incluem: avaliar a autonomia nas atividades de vida diária, relacionada com atividades instrumentais, afetivas e sociais, físicas e espirituais; e avaliar a capacidade de decisão dos idosos, nos eventos de sua vida cotidiana.

2 - Aspectos metodológicos do estudo

Trata-se de um estudo exploratório em que se busca descrever a situação de autonomia, dependência e capacidade decisória do idoso. A pesquisa desenvolveu-se na área do Centro de Desenvolvimento Familiar, unidade de atendimento em atenção primária da Universidade Federal do Ceará, vinculada à Pró-Reitoria de Extensão, localizada no bairro do Pici. Os participantes foram escolhidos intencionalmente e representam, aproximadamente 1 % (30) dos idosos residentes no bairro (A população acima de 60 anos é em torno de 3000 para o bairro do Pici, segundo informações do Núcleo de Planejamento da Secretaria Executiva Regional – SER III responsável pelas ações de desenvolvimento social nesta área), com idade a partir de 60 anos, de ambos os sexos, em qualquer situação que independa de estado civil. Foram incluídas três áreas do bairro onde se concentra parte dos participantes do Grupo Vida (O Grupo Vida é um projeto de Extensão da pró-reitoria de Extensão da UFC. É um grupo cuja finalidade consiste no desenvolvimento da auto-estima e de reforço da dignidade; na promoção da reativação de suas capacidades e reintegração de cada um às suas respectivas famílias; na viabilização de estratégias de fortalecimento para o convívio com o idoso numa relação saudável, habilitando-o a realizar práticas afirmativas de vida. O Grupo se reúne todas as quintas-feiras e é coordenado por uma docente do Departamento de Enfermagem da UFC, tendo um caráter multidisciplinar  (Almeida, Silva e Araújo, 1998)). Em cada área foram aplicados 10 questionários. Foi usada a técnica da “bola de neve”, que consiste na indicação, pelos primeiros, dos demais participantes. Durante a coleta de dados, alguns idosos visitados ou familiares mostraram-se receosos com relação à pesquisadora e sobre a pesquisa, pensando que a mesma era do governo e estava ali com o objetivo de tirar ou reduzir os proventos da aposentadoria.

O instrumento adotado para a coleta de dados foi a entrevista estruturada, dividida em quatro tópicos: dados de identificação, incluindo: nome, endereço, idade e escolaridade; dados familiares do idoso, englobando composição familiar, renda familiar e renda do idoso; grau de autonomia nas atividades da vida diária, divididas em: atividades instrumentais, atividades afetivas e sociais, atividades físicas e atividades espirituais; e avaliação da capacidade de decisão.

A primeira entrevistada, pertencente ao Grupo Vida; mostrou-se disponível para acompanhar a entrevistadora durante a coleta de dados na residência dos idosos. Mesmo acompanhada por uma pessoa da comunidade, houve resistência conforme foi referido. O período de coleta de dados foi durante os meses de setembro a novembro, em dias marcados, com um tempo médio de cada entrevista, gorando em torno de 20 minutos.

Os dados foram organizados em tabelas distribuídas de acordo com os objetivos apresentados. A seguir, foi realizada uma análise fundamentada em autores que discutem a problemática do idoso, a partir de uma abordagem gerontológica.

3 – Apresentação dos resultados

Após organização dos dados em tabelas, foram encontrados os resultados detalhados mais adiante, os quais foram separados de acordo com as categorias propostas nos objetivos: autonomia nas atividades diárias e capacidade decisória do idoso. Antes disso, foi feita a caracterização sócio-econômica do idoso e de sua família.

3.1 – Aspectos sócio-econômicos dos idosos

Analisamos, dentro deste item, dados relativos à idade, sexo, escolaridade, tipo de família do idoso, renda pessoal e familiar. As análises procuraram destacar o gênero do entrevistado, uma vez que é marcante a diferença entre gêneros, na velhice.

Com relação à amostra, podemos dizer que 70 % é do sexo feminino. A proporção de mulheres (19,0 %) é maior que a de homens (11,1 %) na faixa etária de 60 a 65, 70 a 75 (33,3 % e 22,2%, respectivamente) e acima de 80 (19,9 % e 11,1 %, respectivamente). Os homens (33,3 %) lideram em relação às mulheres (9,5 %) na faixa etária de 75 a 80 anos. Existe uma diferença muito pequena de homens para mulheres, na faixa etária de 65 a 70 anos (22,2 e 19,0 %) respectivamente.

De acordo com os dados extraídos da pesquisa, não há diferença significativa entre os níveis de escolaridade entre os idosos entrevistados. Da amostra, 36,0% correspondem a pessoas alfabetizadas; 33,3% possuem o 1º grau incompleto e 30,0 % são analfabetos. Podemos considerar que essas pessoas que referiram ser alfabetizadas são, de fato, analfabetos funcionais, pois tiveram poucos anos de educação formal. O índice de analfabetismo é maior no sexo feminino (33,3%).

Consideramos como família nuclear, aquela constituída pelos cônjuges e filhos. Família incompleta, quando falta um dos membros da família nuclear; e família extensa, quando formada por três ou mais gerações. Observamos que os idosos que moram sozinhos são do sexo feminino, correspondendo a 14,3% do total deste sexo.Em famílias nucleares, encontramos 88,9% dos homens nesta situação, e apenas 28,6% das mulheres. A família extensa se apresenta apenas no grupo feminino, 14,3% , assim como os que moram com outras pessoas sem laços de parentesco, 9,5%. A família incompleta é encontrada no grupo de idosos do sexo masculino, no percentual de 11,1%, e no grupo feminino (33,3%).

Cerca de 83,3% da amostra apresentam uma única fonte de renda: a aposentadoria, predominando a contribuição de um salário mínimo (R$ 151,00); apenas uma idosa informou que recebia a pensão de meio-salário mínimo. A proporção dos que ganham acima de um salário é de 44,4% para os homens e 9,5% para as mulheres, apenas um idoso alcançou o teto máximo de 8,5 salários.

A pesquisa mostra que a renda familiar de 26,7% dos entrevistados é inferior ao salário mínimo; 43,3% ganham menos que dois salários mínimos, 6,7% atingem o teto de, no máximo, seis salários, e 10% não sabem informar a renda.

3.2   Autonomia do idoso nas atividades cotidianas.

Em relação à autonomia nas atividades que são importantes para seu cotidiano, consideramos a capacidade de comunicação, independência nas atividades de vida diária, ditas instrumentais, sociabilidade, atividade física e religiosidade do idoso. Os resultados foram os seguintes:

TABELA 1  —  Nível de comunicação dos idosos residentes no Bairro do Pici, de acordo com o sexo e a idade . Fortaleza (CE)- 1999

COMUNICAÇÃO

Masculino (Idade)

Feminino (Idade)

60-65

65-70

70-75

75-80

80+

Total

60-65

65-70

70-75

75-80

80+

Total

Sempre compreensível*

 

2

2

3

 

7

4

4

7

2

4

21

Dificuldade de comunicação*

1

     

    1

2

           

Dificuldade de audição (à distância )

     

2

 

2

2

1

3

 

2

8

Dificuldade de audição ( próximo  )

   

1

 

    1

2

 

2

1

 

2

5

* Expressão verbal.

A capacidade de comunicação nos idosos apresenta-se, em todas as entrevistadas, totalmente preservada. Em sua totalidade, as mulheres não demonstraram nenhuma dificuldade de articular palavras enquanto 77,7 % dos homens apresentaram-se na mesma situação. Quanto à capacidade auditiva, 30,1 % das mulheres revelam dificuldade em captar sons à distância, e 23,8 %, do mesmo grupo, apresentam a mesma dificuldade quanto a ouvir sons de perto. No grupo masculino esta proporção é de 22,2 % nos dois casos.

As atividades instrumentais são, segundo Veras (1994), classificadas em níveis de complexidade de realização. Assim, consideramos algumas destas atividades, por serem as mais comuns. Incluem-se, no primeiro nível: alimentar-se, pentear-se, deitar-se, levantar-se, vestir-se. No segundo nível estão: tomar banho, exercer controle urinário e esfincteriano, cuidar da casa, preparar a alimentação; já o terceiro nível contempla: fazer compras, pegar ônibus e subir escada. De acordo com o grau de dificuldade para realizar as atividades cotidianas, os idosos apresentaram os seguintes níveis de autonomia: 

 TABELA  2 —  Percentuais dos níveis de autonomia nas atividades de vida diária dos idosos residentes no Bairro do Pici, de acordo com o sexo e a idade . Fortaleza (CE)- 1999

Atividades

Masculino

Feminino

 

Nível de Autonomia

Nível de Autonomia

 

1

2

3

4

1

2

3

4

1º Nível

               

Alimentar-se

88,8

11,2

   

100,1

     

pentear os cabelos

88,8

11,2

   

100,0

     

Deitar-se

88,8

11,2

   

95,2

4,8

   

Levantar-se

88,8

11,2

   

95,2

4,8

   

Vestir-se

88,8

11,2

   

95,2

4,8

   

2º Nível

               

Tomar banho

88,8

11,2

   

95,2

4,8

   

Controle urinário

88,8

 

11,2

 

100,0

     

Controle esfincteriano

88,8

 

11,2

 

100,0

     

Cuidar da casa

33,3

 

11,2

55,5

62,0

19

9,5

9,5

Preparar alimentação

55,6

 

22,2

22,2

76,1

9,5

9,5

4,9

3 º Nível

               

Fazer compras

77,8

11,1

11,1

 

66,6

4,8

23,8

4,8

Pegar ônibus

77,8

 

22,2

 

52,3

23,8

19,0

4,9

Subir escada

77,8

11,1

11,1

 

57,2

28,6

14,2

 

Legenda:  (1) Independente; (2) Faz com ajuda permanente ou esporádica; (3) Dependente; (4) Não faz, mas tem condições de fazer.

 Com base nesses dados, podemos inferir que o nível de independência, para as mulheres, é de 100 % em atividades como: alimentar-se, pentear-se, exercer controle urinário e esfincteriano; 95,2 % em deitar-se, levantar-se, vestir-se e tomar banho; 62,0% em cuidar da casa; 76,1% em preparar alimentação; 66,6 % em fazer compras; 57,2 % em pegar ônibus. O percentual de independência para os homens é de 88,8 % nas atividades como: alimentar-se, pentear-se, deitar-se, levantar-se, vestir-se, tomar banho, controlar a urina e os esfíncteres; os homens possuem mais autonomia que as mulheres em fazer compras, pegar ônibus e subir escada (77,8 %). Um percentual de 55 % não cuida da casa e 22,2 % não preparam alimentos, mas têm condições de fazê-lo. Um percentual de 4,9 % das mulheres não prepara alimentos, tampouco pega ônibus; 9,5 % não cuidam da casa e 4,8 % não fazem compras, mas têm condições de realizar tais atividades. O nível de dependência para elas é maior em fazer compras (23,8 %) e subir escada (14,2 %); e para os homens esse nível é maior em preparar alimentos e pegar ônibus 22,2 %. Há uma dependência de 19 % para as mulheres em pegar ônibus e 9,5 % para cuidar da casa e preparar alimentos.

No que diz respeito ao convívio social, a maioria (76,7 %) dos entrevistados costuma visitar os parentes e amigos, sente-se bem em fazer isso e preocupa-se com a saúde dos amigos. Entre os idosos que saem de casa para realizar alguma atividade de convívio social 74 % são do grupo feminino e 26 % do masculino. Dos que não saem, 23,3% deixam de faze-lo por apresentar alguma dificuldade relacionada com a idade ou doença.

A participação dos idosos em alguma atividade física, é maior na faixa etária entre 65 e 70 anos para os homens (66,7 %), e 28,6 % nas faixas etárias entre 60 e 65, 65 e 70, 80 e mais anos, para as mulheres. Um percentual de 66,7 % dos entrevistados, igual para homens e mulheres, não participa de nenhuma atividade física.

No que diz respeito à participação dos idosos nas atividades religiosas, as mulheres lideram em torno de 76,1% nessas práticas, sendo que a faixa etária em que houve maior incidência foi a situada entre 70 e 75 anos (37,6%). Já os homens são mais ativos nessas atividades, entre 75 e os 80 anos (60,0 %). A proporção de homens que não exerce nenhuma atividade religiosa é de 44,4% , e de 23,8 % para as mulheres.

A avaliação do poder de decisão dos idosos, segundo o tipo de gasto, teve como resultados os seguintes: 95,2% das mulheres têm poder de decisão em gastos domésticos e 81,0% em gastos pessoais. Entre os homens, 66,7 % têm poder de decisão em gastos domésticos e 33,3% em gastos pessoais.

4 - Análise dos dados

4.1 - Os idosos da pesquisa.

Os dados da amostra indicam que o número de mulheres idosas é bem maior que o de homens. Mesmo considerando que a técnica utilizada para a coleta de dados não tenha sido aleatória, o que pode possibilitar “viéses” da parte de quem indicou os idosos entrevistados, os percentuais encontrados não se distanciam do perfil da população brasileira para esta faixa de idade. As mulheres representam 55 % da população total e 56,7 % da população do Estado do Ceará. (PNAD-1997) e, quanto mais velho for o contingente analisado, maior será a proporção de mulheres (Camarano, 1999).

Para Veras (1994), as mulheres vivem mais, pois são menos expostas a riscos, acidentes domésticos e de trabalho, acidentes de trânsito, homicídios, suicídios, consomem menos tabaco e álcool fazem uso mais freqüente dos serviços de saúde. Também foi destacada uma queda na mortalidade materna, em conseqüência de melhor atendimento médico-obstétrico. Mas não são só esses fatores que justificam a longevidade nas mulheres: existem os fatores biológicos e genéticos que, embora ainda não estejam plenamente esclarecidos, contribuem para o prolongamento de suas vidas.

Os dados oficiais mostram que as brasileiras vivem cinco anos mais que os homens. As perspectivas são de que esta diferença continue aumentando, isto porque as taxas de mortalidade masculinas vêm se intensificadas, principalmente por causas violentas, especialmente nos Estados do Sudeste.

A maior expectativa de vida das mulheres, no entanto, não corresponde à melhor qualidade de vida. Os problemas sociais, econômicos e de saúde dos idosos homens, são, em grande parte, os das mulheres idosas, o que leva Hayflick (1997, p. 93) a afirmar que este aumento da longevidade significa mais tempo para sofrer (....) doenças.

Quanto à escolaridade um percentual de (30 %) da amostra é de analfabetos, ou seja, de pessoas que nunca foram à escola. Trinta e seis por cento são representados por alfabetizados, que tiveram poucos anos de educação formal e 33,3 % deixaram de concluir o primeiro grau. Há algumas décadas, o estudo não era muito valorizado, da mesma forma que o acesso à escola era privilégio de alguns, principalmente na zona rural. Os homens entrevistados também apresentaram o mesmo perfil, uma vez que quase todos eram oriundos da zona rural; a escolarização dessa clientela era difícil, tanto para os homens, quanto para as mulheres.

Dentro deste contexto, os homens, assumiam muito cedo o sustento de sua família de procriação e, às vezes, também a de origem. As mulheres tinham menores oportunidades de freqüentar a escola, já que a maioria dividia suas atribuições entre o trabalho na lavoura, e os cuidados da casa e dos filhos, o que reflete o baixo índice de instrução nas idosas. Atualmente, essa situação está mudando, tanto assim que a alfabetização, para esta população, só tende a aumentar. Em 1996, 63 % dos indivíduos com 60 anos ou mais tinham menos de quatro anos de estudo (IBGE – 1996). Hoje, percebe-se uma tendência à elevação do nível de instrução das mulheres, através da procura cada vez amior, de cursos profissionalizantes, reciclagem e aperfeiçoamento.

Segundo dados da PNAD (1996), as famílias com maior risco de pobreza, são, em termos gerais, as extensas, as compostas e as chefiadas por mulheres. A proporção de famílias que tem idoso como chefes e filhos que moram juntos, passou de 32 %, em 1986, para 36 %, em 1996. Isso se deve à crise econômica que fez com que os filhos permaneçam nos lares dos pais, mesmo depois de constituírem família. A universalização da aposentadoria, após os 65 anos para os idosos carentes, aumentou o poder aquisitivo, mas, por outro lado, gerou a dependência dos mais jovens da família em relação ao aposentado. Assim é que, segundo Camarano, (1999), rebaixar valores da aposentadoria não só faz com que o idoso fique mais carente, mas também com que sua família acompanhe-o neste processo danoso.

A pesquisa da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), mostra que em 1994, na América Latina, 54 % dos domicílios no Paraguai e 71 % na Colômbia, Bolívia, Brasil e México, eram habitados por famílias do tipo nuclear.

Na nossa amostra, seguindo a tendência demonstrada a maioria dos homens (89 %) está incluída  na família nuclear, isto porque o homem tem maior possibilidade de reconstruir uma nova família, através de um novo casamento. Já as mulheres sentem mais dificuldade para reconstrução da família, muitas delas permanecendo sozinhas, fato que se comprova nos achados da pesquisa, em que um percentual de 14,3% mora só enquanto maioria (33,3 %) encontra-se em famílias incompletas. Vinte e oito por cento, por sua vez, reside em famílias nucleares e as demais com outras pessoas.

A renda do idoso depende, principalmente, dos benefícios previdenciários, confirmando também os dados encontrados na pesquisa (IBGE-1996).

O baixo poder aquisitivo nos idosos é uma realidade, sendo que 60 % dos entrevistados ganham até um salário mínimo. Na amostra, a proporção dos que ganham acima de um salário mínimo é maior para os homens (44,4 %), o que evidencia a desigualdade na renda feminina. Encontramos embora em menor escala, um percentual de mulheres sem nenhuma fonte de renda, o que justifica sua pior condição.

Os dados da PNAD mostram que 1/3 dos brasileiros com 60 anos ou mais, mantinha-se em atividades produtivas no ano de 1995. A aposentadoria, adiante-se, não é suficiente para atender às necessidades do idoso, sendo este obrigado a retornar ao mercado de trabalho, exercendo, muitas vezes atividades incompatíveis com sua idade. Ainda segundo o PNAD os idosos apresentam melhores condições do que a população jovem, em termos de conhecimento, isso porque experimentaram melhores momentos da economia brasileira. Note-se que a renda média dos maiores de 60 anos é maior que a dos jovens, ou seja, daqueles com menos de 30 anos, e que as famílias brasileiras que possuem idosos, aparecem em melhores condições econômicas do que as demais (IBGE-1996).

Os dados encontrados no que se refere à renda familiar demonstram a crueldade da pobreza, confirmando o que já dissera Gandhi: a pobreza é a pior forma de violência.. Vinte seis por cento dos idosos entrevistados residem com famílias que têm renda de menos de um salário. Se considerarmos as necessidades e demandas do idoso, veremos que estas, nem de longe, serão atendidas. Outros grupos etários, como crianças e mulheres, constituem prioridades para o cuidado e atendimento destas necessidades, tanto no ambiente familiar com nos programas governamentais. Quarenta e três por cento das famílias da amostra possuem renda menor que 02 salários mínimos. De acordo com os dados da PNAD (1997), 40,7 % das famílias brasileiras ganham até um salário mínimo, sendo que, no Estado do Ceará, esse percentual é de 62,2 %. O teto máximo alcançado foi seis salários mínimos. Observamos que a renda do idoso constitui uma parcela substancial da renda familiar, mas esta participação financeira não se reflete em capacidade de decidir.

4.2 - Autonomia nas atividades diárias.

A importância da autonomia, para uma velhice saudável é colocada por todos os autores que estudam a Gerontologia e Geriatria. Estudo realizado na da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, sobre longevidade, concluiu que envelhece mal quem não é capaz de, sozinho, fazer compras, pegar transporte, pagar contas no banco, tomar medicamentos, ter controle urinário e esfincteriano, andar, vestir-se, banhar-se, comer, cuidar da aparência, ir ao banheiro e sair de casa (Maria, 1999, p. 13). Esta seqüência obedece a uma hierarquia, na qual o risco de morrer aumenta, na proporção de preenchimento de sete das restrições elencadas quanto à realização das tarefas acima (Maria, 1999).

Julgamos que essas atividades são e natureza instrumental. Moragas (1997) pontua outros tipos de atividades, das quais destacamos as afetivas e sociais; físicas e espirituais.

Na análise dos dados confrontados os idosos entrevistados, foi possível perceber que na capacidade de comunicação, as mulheres não apresentaram nenhuma dificuldade em articular as palavras; já entre os homens, foi encontrado um percentual de 22,2 % com essa dificuldade. Segundo Berger e Mailloux-Poirier (1995, p. 476) as dimensões do processo comunicativo são: biológica, fisiológica, social e/ou espiritual. Cada uma destas dimensões é influenciada por diversos fatores que podem afetar a independência de um indivíduo na satisfação da sua necessidade de comunicar.

Sabemos que muitas doenças crônicas, assim como o próprio envelhecimento, alteram o funcionamento dos órgãos que servem para a comunicação, afetando também a necessidade de comunicar. Os processos mentais ligados ao pensamento, à memória, à compreensão e ao raciocínio são essenciais no processo da comunicação. A forma de se comunicar é influenciada, por sua vez, a partir de como reagimos afetivamente a uma pessoa ou a uma situação.

O meio ambiente também pode influenciar, positiva ou negativamente, a comunicação nas pessoas idosas, dependendo da quantidade de estímulos aos quais esta pessoa está exposta. Na nossa amostra, as mulheres apresentam um percentual de 30,1 % de dificuldade para captar sons à distância, e 23,8 % para ouvir sons de perto. Enquanto isso, os homens apresentam um percentual de 22,2 % de dificuldade, em ambos os casos.

Segundo Veras (1994, p. 120-121) existem quatro níveis de dificuldades, para realização dessas atividades. São eles: Primeiro: alimentar-se sozinho; pentear o cabelo, deitar-se e levantar-se da cama, vestir-se. Segundo nível de dificuldade: tomar banho, caminhar em superfície plana, usar o banheiro a tempo, tomar remédio. Terceiro nível de dificuldade: sair para perto de casa, subir escadas. Quarto nível de dificuldade: Cortar as unhas dos pés, sair para lugares distantes, tomar ônibus.

A tabela 02 apresenta os percentuais dos níveis de autonomia do idoso nas atividades da vida diária. Foram relacionadas 13 atividades, de acordo com o grau de dificuldade para sua realização. Criou-se por conta disso, uma escala de avaliação, cujos gradientes iam de independente total (1) a dependente total (3) para sua realização. Aplicada essa escala, observamos, que as mulheres são independentes, na maioria das atividades relacionadas ao autocuidado e às atividades voltadas ao trabalho doméstico (cuidar da casa e preparar alimentação). Os homens mostraram-se mais dependentes em todas as atividades, exceto fazer compras e pegar ônibus. O que é interessante observar é que, nas atividades ditas típicas das mulheres (cuidar da casa e preparar alimento), os homens não as executam (55 %), mas tem condições de executa-las (22 %). Este dado demonstra o quanto o homem ainda é dependente da mulher, ou seja, ela faz por ele, aquilo que é entendido, culturalmente, tarefa de mulher.

Moragas (1997) afirmamos diz que os efeitos da aposentadoria sobre a mulher são poucos, dado que ela não muda muito sua dinâmica de vida, apenas passa a mulher a dispor de mais tempo para o trabalho no lar. As dificuldades mais importantes para a mulher não são as de sua própria aposentadoria, mas a do marido (Moragas, 1997, p. 161). Este, via de regra, passou o maior tempo fora de casa e agora, na aposentadoria, preciso criar seu próprio espaço, dando vez a que sejam reordenados os ritmos diários do lar.

Alguns idosos encontram dificuldades em realizar determinadas atividades, em virtude de problemas relacionados com doenças crônicas. Encontramos apenas no sexo masculino um percentual de 11,2 % que apresenta incontinência urinária. Segundo a literatura, este problema é comum neste grupo etário, possível de ser agravado pela mobilidade limitada, o que acontece também no controle esfincteriano. Através dos dados encontrados, foi-nos possível observar que a maioria dos idosos ainda consegue ser independente nas atividades de vida diária. Apenas 6,6 % da amostra são considerados dependentes, sendo um do sexo masculino e outro do sexo feminino. Esses dois idosos tornaram-se dependentes em conseqüência de doenças degenerativas, um dos quais encontra-se em processo de se recuperação de um acidente vascular cerebral. O outro dada a sua condição econômica precária também por falta de interesse dos familiares em buscar uma assistência adequada a sua patologia, torna-se cada vez mais dependente.

O conceito de saúde tem mudado muito ao longo dos anos. Em 1947, a Organização Mundial de Saúde-OMS, definiu saúde como um bem estar físico, mental e social, ou seja, um indivíduo, mesmo portador de uma doença, pode se sentir saudável, desde que seja capaz de manter-SE ativo, exercendo sua função social, realizando projetos, tendo, enfim uma boa qualidade de vida. Diversos estudos têm projetado um crescimento no tamanho da população idosa incapacitada para exercer determinadas funções. Pessoa incapacitada, diga-se de passagem, resulta em pessoa dependente necessitada de cuidados constantes. Pesquisadores estimam que o número de pessoas idosas, dependentes nas atividades da vida diária, dobrará na segunda ou terceira década do próximo século, à medida que o tempo de vida for sendo ampliado (Pascoal, 1996).

Berger e Mailloux-Poirier (1995, p. 147) define incapacidade como limitação funcional ou restrição de atividades imposta pela deficiência. Já dependência é a anomalia de um órgão ou de um sistema.

 Para os idosos entrevistados, saúde significa ter independência, ter capacidade para fazer as coisas, trabalhar, poder ir e vir, mesmo apresentando algumas doenças crônicas. Mantendo-se independentes e autônomos, as dificuldades serão bem menores, não só para o idoso, mas para a família e para a sociedade. A OPS (1992) reconhece que a saúde, bem-estar e qualidade de vida na população idosa são determinadas, além da própria biologia, pelas políticas de saúde e previdência social e pelas políticas educacionais. Avaliar o grau de autonomia e de dependência para realizar atividades de vida diária, também são indicadores neste grupo etário, não podendo ser esquecido o nível socioeconômico e cultural. Sempre que for necessário avaliar o grau de dependência das pessoas nas atividades de vida diária, deve-se levar em conta o desempenho físico, psíquico, social e cultural, em que, às vezes, a dependência é desejada e aceita.

Para Pascoal (1996, p. 316), autonomia …é o estado de ser capaz de estabelecer e seguir regras. O autor adverte que para o idoso, a autonomia é mais útil que a independência, como um objetivo global, haja vista a possibilidade de restaurá-la por completo, mesmo quando o indivíduo continua com dependência. Exemplo disso são pessoas extremamente poderosas no mundo dos negócios ou na política, dependentes de uma cadeira de rodas.

Para o filósofo Motta Pessanha, citado por Pascoal (1996, p . 316)

 a palavra autonomia, do ponto de vista semântico, recobre, em grande parte, a palavra independência. Autonomia é derivada do grego nomus, é a lei estabelecida através do confronto de opiniões, mas com predominância das idéias e interesses do próprio indivíduo, que ali se encontra para oferecer o seu ponto de vista. Pessoa autônoma é a que retira de si mesma a fonte de poder; tendo nela mesma, a sua fonte de decisão, consegue, assim, tornar-se ela mesma e construir seu próprio caminho de vida.

O mesmo autor, diz que independência e dependência são conceitos ou estados que só podem existir em relação a alguma coisa. Qualquer um pode identificar em uma mesma pessoa, independência financeira e dependência afetiva.

Pascoal (1996) explica que, embora o conceito de dependência se sobreponha ao de incapacidade e invalidez, eles não são sinônimos. Para ele, dependência é um estado no qual um indivíduo confia em outro (ou em outros), para ajudá-lo a alcançar necessidades previamente reconhecidas. Nessa compreensão, aplica-se a dependência afetiva, a parceria e outros casos, nos quais a pessoa “dependente” pode estar com suas faculdades na mais perfeita ordem, embora o outro seja condição necessária para a realização dos objetivos de quem está em situação de dependência.

A dependência não é um atributo apenas da velhice, estando presente em todo o curso da vida. Na verdade, em todas as fases da vida há um relativo grau de dependência. Com o passar dos anos ela só tende a aumentar, principalmente no grupo etário mais velho, em que é bem maior a necessidade de ajuda, para desempenhar uma atividade.

4.3  - Atividades físicas e sociais.

A maioria dos entrevistados (66,7 %) não participa de nenhuma atividade física, sendo o percentual semelhante para ambos os sexos. Para ter saúde, é importante realizar algum tipo de atividade física, respeitando os limites impostos pela capacidade funcional de cada um. Estudos em profusão atestam este fato, dando conta, inclusive, de que o indivíduo, ao envelhecer, perde alguns papéis, sendo necessário procurar um tipo de atividade para preencher o seu tempo. Essas perdas são tanto físicas como emocionais e requer uma nova adaptação, o que não é fácil.

É importante a vontade do próprio indivíduo, para buscar novas  funções. Doenças crônico-degenerativas como artrite, diabetes, infarto do miocárdio, hipertensão, podem afetar a locomoção, interferindo na vida social do idoso. Observamos que a maioria dos entrevistados (76,7 %) mantém o contato com os amigos e parentes, e sai, não raro, para visitá-los. Para eles, essa é uma forma de lazer, que os ajuda a se manterem ativos.

É importante destacar aqui é que o idoso, embora restrinja suas relações sociais, não encara o fato como é prejudicial, uma vez que ele já não está mais preocupado com as relações que lhe possam trazer informações, mas sim com as que proporcionem bem-estar. O convívio com a família - filhos e netos e com a sua rede social é o que vai dizer da sua saúde emocional (Goldstein, 1995).

Ao ser iniciado o processo de envelhecimento, as perdas se intensificam. Cada indivíduo, de maneira muito específica, tem de enfrentá-las. Essas perdas aumentam quando chega a aposentadoria, haja visto o indivíduo perder o seu papel social, surgindo daí dificuldades financeiras, doenças crônicas e isolamento, dando margem a uma queda da auto-estima. Aceitar essas mudanças não é fácil. Tanto assim que é justamente nessa etapa da vida, em que o tempo livre é ampliado, que as pessoas procuram buscar o autoconhecimento e a paz interior. Buscar Deus, então, é o grande objetivo da maioria dos idosos.

As mulheres entrevistadas estão mais preocupadas com sua religiosidade. Através da oração elas superam as dificuldades impostas pela vida, como a perda do companheiro, divórcio, menor oportunidade de trabalho. Na amostra apenas 23,8 % delas não exercem nenhuma atividade religiosa; já no sexo masculino o percentual sobe para 40,0 %. Dos homens que exercem alguma atividade religiosa, 60 % pertencem à faixa etária entre 75 e 80 anos, confirmando a preocupação dos homens em buscar Deus no final da vida. Esse é o momento de expressar suas crenças e de conservar a esperança em Deus, dentro de uma dimensão espiritual que pode acelerar o processo de cura e influenciar, também, a qualidade de vida.

A atividade religiosa exerce uma função importante para o idoso, até porque nesse ambiente, o contato não é só com Deus, servindo também de oportunidade para rever os amigos, colocar em dia os assuntos de interesse comum. Preencher o tempo livre tem ainda um lado positivo, porquanto o indivíduo não se sentirá inútil, incapacitado, já que precisa continuar vivendo, lutando crescendo. Na prática da psicologia, os autores mais eminentes reconhecem a importância da religião na vida do homem. Na vida adulta e na velhice a religiosidade passa a ser então, importante referencial para as pessoas (Goldstein e Neri, 1993). Em pesquisa realizada pelas autoras, os dados demonstraram que o aumento do crescimento pessoal, é atribuído à religiosidade, como algo significante para facilitar o convívio com a solidão e a dependência, propiciando sentimentos positivos em relação a esse estágio de vida.

Para alguns, a velhice pode ser um período vazio, sem valor, inútil, sem sentido, enquanto que, para outros, pode ser um período de aproveitamento, de crescimento, de realização pessoal, de oportunidade de fazer aquilo que não fez quando jovem, porque o tempo era todo ocupado na criação dos filhos, na busca de estabilidade profissional, etc. São vários os estudos que enfatizam e reconhecem o “fazer” como uma necessidade do ser humano. O fazer inclui atividades que vão desde os cuidados pessoais (higiene), às atividades de vida diária (AVD)- comer, vestir locomover-se, comunicar-se etc, passando pelas atividades de vida prática (AVP)- telefonar, fazer compras, pagar contas etc, além de outras que incluem o trabalho, o lazer e a manutenção dos direitos e papeis sociais (Moragas, 1997; Veras, 1994; Maria, 1999).

4.4  - Autonomia nas decisões da vida do idoso.

O foco central da Política Nacional do Idoso é a promoção de um envelhecimento saudável, através da manutenção da capacidade funcional, ou seja, valorizando a autonomia e preservando a independência física e mental do idoso. As doenças físicas e mentais levam à dependência e, conseqüentemente, à perda da capacidade funcional, assim entendido como a capacidade que tem o indivíduo de manter habilidades físicas e mentais necessárias a uma vida independente e autônoma (Brasil-MS, 1999).

As incapacidades funcionais dos idosos ligam-se, sobretudo, a atividades como sair à rua, manter a casa e preparar alimentos. Estas incapacidades são mais problemáticas para as pessoas acima de 80 anos. Na nossa amostra, o poder de decisão das mulheres é maior que o dos homens em: gastos domésticos (95,2 %) e supérfluos (81,0 %). Para os gerontólogos, manter a autodeterminação, sem necessitar, obrigatoriamente, de ajuda, significa manter-se saudável, mesmo sendo portador de alguma doença crônica. O que parece existir, em alguns idosos, é uma ilusão de decidir, mas o que ele diz decidir sozinho, na verdade é apenas um ato de comunicação. Na amostra, encontramos seis idosos com essa característica. Exemplificando: um membro da família recebia sua aposentadoria e, imediatamente buscava incluí-la nos gastos da casa. A decisão de partilhar ou não esses recursos, ficava assim comprometida, uma vez que não havia como escapar à responsabilidade.

5 - Considerações finais

O resultado desta pesquisa demonstra que a maioria dos idosos é representada por autônomos, com capacidade para realizar suas atividades cotidianas sem qualquer ajuda apesar das condições financeiras precárias da presença de alguma doença degenerativa. A dependência faz parte de diversas etapas da vida de cada um de nós, não sendo sinônimo de velhice ou incapacidade.

A dependência que encontramos em alguns idosos, para realizar atividades cotidianas, está relacionada com as doenças crônicas degenerativas, e não apenas com o processo de envelhecimento.

A família exerce um papel importante na manutenção da autonomia e do poder de decisão dessa clientela, desde que não encare a velhice como um momento de perda, deixando que o idoso continue executando suas atividades de vida diária, respeitando, é claro, os limites impostos pelo processo de envelhecer.

Apesar de ter diminuído o índice de analfabetismo no Brasil, o nível educacional dos idosos ainda é baixo. O PNI foi implantado há cinco anos, mas ainda não se efetivou. O que vemos, á nossa frente, é a falta de tratamento adequado para essa clientela, é o desconhecimento, enfim, dos direitos dos idosos, por parte de muitas pessoas.

Na atualidade, a problemática do idoso, no país, tem merecido maior interesse tanto dos órgãos públicos formuladores de políticas sociais como da sociedade em geral, muito embora sejamos carentes de novas demandas. De princípio, tem-se como importante, investir na educação e na saúde das crianças. Como resultado, teremos adultos qualificados para o mercado de trabalho e, conseqüentemente, uma população de idosos com melhor qualidade de vida.

 A desigualdade de renda é uma característica marcante em toda a sociedade brasileira, principalmente entre os idosos. Observamos que tanto a renda do idoso, como a de sua família é, relativamente, muito pequena. Compete-nos, assim, mudar essa representação da velhice, como sinônimo de perdas, até porque é justamente nesta etapa da vida, que o idoso pode realizar coisas que antes lhes pareciam impossíveis, principalmente, pela falta de tempo e oportunidade.

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Autoras:

Zenith Rose dos Santos Pires - Enfermeira do Programa de Saúde da Família . especialista em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará.

Maria Josefina da Silva - Professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Mestre em Sociologia e Doutora em Enfermagem

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