Sobre a Revista

O nome Cerradeira para a revista do PPGAS remete ao ofício, ao lugar, ao contexto de produção de conhecimento antropológico e é também um convite para fazer parte do coletivo que se constitui nesse movimento e posicionamento cerradeiro de produção acadêmica. Dessa forma, apresentamos a Revista Cerradeira como um manifesto onde é sedimentado um canteiro de criações políticas e epistemológicas.

O objetivo principal da Revista Cerradeira é compartilhar conhecimentos, saberes e produções científicas e acadêmicas em antropologia social e colaborar para a produção de uma antropologia posicionada que articula saberes localizados, corporificados e profundamente diaspóricos. Cerradeira marca também a posição e o movimento de criar , manifestar e fazer circular conhecimento antropológico de alcance internacional, nacional e regional, orientados para pluralizar e provocar mudanças epistemológicas e políticas na antropologia.

A revista posiciona a prática etnográfica lado a lado dos ofícios das mulheres cerradeiras do sertão, como as quebradeiras de coco babaçu, que fazem da travessia e da imersão no cerrado seu ofício e modo de viver e criar. Assim como o trabalho das mulheres cerradeiras, bordadeiras, raizeiras, quebradeiras, cozinheiras, merendeiras, pensamos a escrita antropológica como um ofício artesanal lento, orgânico e resistente ao produtivismo acadêmico. O formativo “eira” do nome enfatiza o engajamento e a aliança com conhecimentos tradicionais ou populares. Este sufixo remete a ofícios populares e a uma forma de construir palavras mais comum no sertão.

Desde essa posição cerradeira que perturba o arranjo hierarquizado de conhecimentos, a revista do PPGAS da UFG busca se conectar a outras antropologias no Brasil e na América Latina que refluem em movimentos contracoloniais.

Pelas linhas da escrita antropológica, a Revista Cerradeira vem reunindo antropólogas batalhadeiras, parideiras de ideias, pegadeiras de palavras, semeadeiras de problemas, futriqueiras, criadeiras de caso que buscam fazer uma antropologia sem eira nem beira,  desobediente e insurgente.

 Com nossa cesta trançada com palavras juntamos, em edições semestrais, artigos científicos, ensaios, relatos de experiências, entrevistas, traduções, resenhas, manifestos, cartas, poemas, desenho, produções artísticas e audiovisuais em três seções: Cria, Posiciona e Manifesta.

A Revista Cerradeira nasce no PPGAS da UFG no momento em que esse programa de pós-graduação completa 15 anos de existência e se oferece como um novo meio editorial para articular outros movimentos cerradeiros. Queremos estimular publicações científicas relacionadas a lutas indígenas, negras, quilombolas, feministas e LGBTQIAN+, bem como a educação, saúde, cultura, ciência, tecnologia, patrimônio, audiovisual, política, meio ambiente, ações afirmativas, religião, corpo, gênero, sexualidade, raça e etnia e outras convergências no campo da antropologia. Acreditamos ser essa revista um importante instrumento com potencial para a produção de reflexão crítica sobre as particularidades do saber-fazer antropológico e suas múltiplas implicações.

 

Criação da Cerradeira: Revista de Antropologia

 

Há 15 anos, despontou no cenário da antropologia brasileira o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFG trazendo a proposta de uma antropologia insurgente posicionada no sertão contra o colonialismo em suas várias formas, entre elas, o colonialismo interno. A criação do PPGAS fez parte de um movimento de descentralização geopolítica da produção de conhecimento e da formação profissional em antropologia, até aquele momento, concentradas nas regiões Sul e Sudeste do país.

O PPGAS se tornou hoje um programa consolidado com nota 5 na avaliação da CAPES. Neste momento de ativação da memória do programa e de recuperação da sua proposta original de criação, o projeto da revista dá continuidade a esse movimento contrahegemônico. Para marcar esses primeiros 15 anos de sua história, o PPGAS criou a revista Cerradeira, que espelha sua estrutura e seus anseios por novas abordagens, linguagens e formas de expressão na área da antropologia.

A ideia de criar uma revista do programa vem sendo ventilada há alguns anos. O cenário atual nos encoraja a dar forma a esse desejo antigo. A criação da revista foi tema das reuniões de autoavaliação e planejamento do programa nos anos de 2023 e 2024. A proposta foi acolhida por integrantes da CPG e na reunião de planejamento de março de 2024, a criação da revista se tornou uma ação prioritária articulada ao processo de internacionalização do programa. Na reunião da CPG do dia 9 de outubro de 2024, a estrutura da revista foi apresentada e na reunião do dia 25 de novembro do mesmo ano, o presente projeto de criação será apreciado.

A coordenação do programa organizou o processo institucional de criação da revista em conformidade com os mais altos padrões de qualificação de periódicos nacionais e internacionais na área de antropologia e com as diretrizes da política de periódicos da UFG, das políticas editoriais da ABEC e dos principais indexadores nacionais e internacionais.

As primeiras ideias para a criação da revista surgiram na reunião do dia 10 de julho de 2024 que contou com a presença de docentes, discentes e egressas. Nessa primeira reunião, surgiu o nome Cerradeira que buscou marcar o lugar de produção da revista sem se render ou se limitar aos enquadramentos regionalistas/colonialistas e à circunscrição administrativa do centro-oeste.

Por meio desse nome, a revista se vincula a um dos biomas mais devastados pelo capitalismo extrativista e se posiciona nesse lugar de resistência diante do cenário atual de crise ecológica e climática. O nome foi proposto pela profa. Luciene Dias e a concepção em torno dele foi desenvolvida em parceria com a profa. Suzane de Alencar Vieira.

A partir da primeira reunião, as professoras passaram a coordenar o processo de criação e a organizar os trabalhos e uma série de reuniões com parceiras, gestoras da política de periódicos e com a equipe da revista para a construção deste projeto. Várias/es discentes e egressa participaram desse processo e agregaram importantes contribuições em cada uma das reuniões.

Os primeiros passos de criação da revista contaram com o apoio da FAPEG por meio do projeto de Internacionalização do PPGAS intitulado “Diálogos entre antropologias minoritárias: intersecções, cooperações e parcerias do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFG” (Chamada FAPEG 01/2024).

A revista é parte das ações de internacionalização e criação de redes de cooperação com periódicos e instituições de ensino de países da América Latina. Parte das ações desse projeto foram voltadas para a construção de condições favoráveis para o nascimento da revista. A principal dessas ações foi o curso de capacitação para editoração de periódico internacional com o editor-responsável pela Revista Antípoda, publicada pela Universidad de los Andes (Bogotá/Colômbia), revista conceituada na área de antropologia da América Latina. Integrantes da equipe de criação da revista, docentes e discentes do programa participaram do curso de capacitação que fez parte da programação do 7o Simpósio Internacional da Faculdade de Ciências Sociais da UFG.

A revista Antípoda ofereceu consultoria ao longo do processo de criação da Cerradeira e apoio para a divulgação dos números da revista. Ao longo de sua permanência em Goiânia no mês de agosto de 2024, Luis Carlos Ramirez, editor da Antípoda, participou de reuniões com a equipe da revista com objetivo de dar suporte e traçar apoios e parcerias possíveis para a criação e estruturação da revista.

 A revista Cerradeira representa um novo posicionamento da antropologia de Goiás no quadro nacional e internacional e um novo passo para incluir o PPGAS em redes e fluxos de editoração de periódicos na área de antropologia. A revista contribui para ampliar a visibilidade do programa e seu impacto nos processos de produção de conhecimento acadêmico, já que a editoria e a publicação acadêmica constituem um importante instrumento do jogo ainda altamente hierarquizado da produção de conhecimento. Nesse novo plano de visibilidade e de circulação de conhecimento, a revista Cerradeira busca projetar não somente   o PPGAS como também a FCS e a UFG como referências na área de antropologia.